News of Russia -Segunda Guerra Mundial
 
De Abril a 15 de Junho de 1940

Uma nova espécie de guerra

A probabilidade de que a vinda da primavera traria uma ofensiva em grande escala foi ampliada pelas novas medidas de bloqueio adotadas pelos aliados. Para essas medidas havia, pelo menos, dois motivos discerníveis. O primeiro, naturalmente, era privar a Alemanha dos meios para a condução da guerra. Mas o segundo era baseado na esperança de que o perigo de ser lentamente sufocado forçaria a Alemanha a abandonar sua tática defensiva. Julgava-se em muitos círculos que o desencadeamento de um ataque pela Alemanha, que a forçaria a deixar sua posição preparada, seria de real vantagem para os aliados. Obrigá-la-ia a efetuar esforços mais desmedidos, que rapidamente absorveriam suas reservas de material; e ao mesmo tempo era esperado que as forças nazistas, martelando as posições aliadas, extenuar-se-iam de tal maneira que os aliados, no momento apropriado, poderiam lançar o contra-ataque que lhes traria a vitória a um custo mínimo.

Essa concepção de guerra defensiva, uma guerra de responsabilidade limitada, tinha o sucesso dependente de um cálculo acurado do poder dessa defensiva. Mas quando a Alemanha tomou a iniciativa e desfechou um golpe de sucesso contra a Escandinávia com uma arremetida arrasadora através dos Países Baixos, rapidamente se percebeu que os cálculos baseados na experiência passada tinham de ser lançados aos ventos. A guerra "real", quando estalou, foi uma espécie inteiramente nova de guerra. Os elementos básicos talvez fossem os mesmos apresentados nos livros militares, mas o desenrolar da tática baseava-se em novas armas, e o novo uso dessas armas tornava-a inteiramente sem precedentes.

Para essa espécie de guerra, os aliados descobriram que ainda não estavam preparados. Tinham que definir a sua natureza e descobrir uma resposta aos novos métodos de ataque em meio aos desesperados esforços de suportar esse ataque com êxito suficiente para evitar o completo aniquilamento. E, entrementes, eram os nazistas que, com a sua nova técnica, mantinham a iniciativa. Eles foram capazes de escolher o seu próprio terreno e campo e de impor ao inimigo, submetido a forte pressão, as condições de batalha que melhor convinham aos seus propósitos. Em dois meses de luta, o tamanho do sucesso que obtiveram era em si uma prova de quão diferente esta guerra era daquela que havia vinte e cinco anos se travara em grande parte desse mesmo território.

Essa diferença não era inerente, não somente em métodos militares, mas às amplas conseqüências da luta. Já não eram mais apenas os beligerantes, e mesmo sequer os pequenos estados pára-choques, aqueles que haveriam de sofrer as conseqüências do desfecho. Mesmo as nações que estavam de fora, sem nenhum receio imediato de ataque, despertaram com um choque à percepção de que isso era algo mais que uma guerra comum por objetivos limitados. Era uma luta entre duas concepções totalmente diferentes de vida; e enquanto era certo que o mundo seria transformado pelo fato da própria guerra, a natureza da transformação que se seguiria a uma vitória nazista estava começando a tornar-se clara. Seria o fim de um tipo de sociedade para cuja evolução o mundo ocidental tinha gasto séculos, e a criação de uma ordem inteiramente nova que imporia seu cunho não apenas às nações conquistadas mas ao mundo em geral. E quando o mundo enfrentou essa perspectiva, tornou-se consciente de que estava diante da ameaça de uma revolução mundial iminente, - ameaça que não mais partia de Moscou e sim de Roma e Berlim.

A Invasão da Escandinávia

A decisão a que chegaram os aliados, no fim de março, de apertar de modo mais eficiente o bloqueio da Alemanha foi vista com especial apreensão na Escandinávia. Havia naturalmente muitas aberturas que os aliados pretendiam tapar - o petróleo e metais que a Alemanha estava obtendo dos Bálcãs, os gêneros alimentícios que recebia dos Estados danubianos, a ampla quantidade de produtos de além-mar que lhe chegavam através dos Países Baixos. Importantes porém como eram, havia razão para se acreditar que as questões de interesse mais imediato dos aliados fossem as relacionadas com o minério de ferro que a Alemanha estava recebendo da Suécia e o qual era transportado através das águas territoriais norueguesas.

Para essas duas nações, os problemas de neutralidade tinham-se tornado gradualmente mais difíceis desde que a guerra começara. Ao mais leve indício de que não estavam completamente subordinadas à Alemanha, a imprensa e o governo nazistas rompiam em grita ameaçadora. Ao mesmo tempo, a Alemanha na sua guerra aérea e submarina não fazia esforços para distinguir os navios suecos e noruegueses dos barcos beligerantes. Até o dia 6 de abril, 52 navios noruegueses, 33 suecos e 28 dinamarqueses tinham sido afundados, com uma perda de perto de mil vidas. Quando os protestos desses neutros à Alemanha foram respondidos apenas com novas recriminações, os aliados naturalmente começaram a achar que tal neutralidade deixava algo a desejar.

A guerra finlandesa tinha por um tempo acrescentado nova complicação a esse estado de coisas. Com o fim das hostilidades, os Estados escandinavos ficaram livres dos perigos inerentes dos planos aliados de intervenção em favor dos finlandeses. Mas o problema geral permaneceu, acentuado por uma crescente impaciência aliada pelo continuado acesso da Alemanha aos suprimentos escandinavos; e isto foi expresso pela irradiação de Churchill a 30 de março, a qual acentuava que os neutros estavam sendo forçados a suprir uma potência cuja vitória significaria a sua escravidão. Qualquer dúvida sobre o que essa atitude significava para a Escandinávia foi removida pela declaração de Chamberlain a 2 de abril, a qual atacava esse "duplo padrão de neutralidade" e insinuava fortemente que os esforços que estavam sendo realizados para bloquear a rota escandinava eram apenas a fase preliminar de operações mais efetivas. E dois dias mais tarde, falando à União Nacional dos Conservadores e Associações Unionistas, o primeiro ministro disse: "Embora jamais procuremos infligir danos ou perdas aos neutros, e embora estejamos ansiosos por guardar todas as regras, não se pode esperar que permitamos que a Alemanha tire vantagens indefinidamente dos nossos escrúpulos com o arrancar assistência e conforto aos neutros.

A esse ponto de vista foi dada expressão oficial nas notas aliadas apresentadas à Noruega e à Suécia a 5 de abril. Essas notas, de conformidade com a declaração do sr. Koht a 8 de abril, alegaram que os acontecimentos dos últimos três meses tinham mostrado a recusa da Alemanha de permitir que os estados escandinavos dirigissem livremente sua própria política externa. O resultado foi que a Alemanha, por seu acesso a importantes matérias-primas, beneficiava-se de vantagens nesses países para desvantagem e perigo das Potências Aliadas. Isto era algo que os aliados não mais podiam tolerar. Eles estavam lutando tanto por si próprios como pela causa das pequenas nações, e não podiam permitir que fossem prejudicados pelas vantagens que tal situação dava à Alemanha. Tinham, portanto, que se reservar o direito de tomar medidas que pusessem fim a todas as práticas que ajudavam a Alemanha ou feriam a causa aliada.

As medidas que tinham em mente referiam-se particularmente à rota do minério de ferro. Os navios alemães acharam possível viajar de Narvik à costa norueguesa sem deixar as águas territoriais até chegarem ao Skaggerak e à guarida dos campos de mina alemães. "Não tem havido", disse Churchill a 11 de abril, "nenhum impedimento maior ao bloqueio da Alemanha do que esse corredor norueguês. Foi assim na guerra passada, e tem sido assim nesta guerra." Durante a guerra passada, os aliados tinham induzido a Noruega a colocar campos de mina nessas águas; e quando a atual guerra iniciou, eles procuraram obter da Noruega permissão para colocar suas próprias minas ali. Mas a Noruega resistiu firmemente a essa exigência; e a sua virtual rejeição ao pedido aliado, consignada nas notas de 5 de abril, mostrava que nenhuma ação efetiva poder-se-ia esperar de sua parte. A 8 de abril, os aliados passaram das palavras aos atos. Na manhã daquele dia, os aliados anunciaram que tinham resolvido "impedir o uso continuado pelo inimigo de trechos de águas territoriais que lhe eram de especial valor", e que em conseqüência tinham colocado campos de mina em três pontos das águas norueguesas.

O governo norueguês protestou imediatamente e exigiu a remoção das minas. Parecia bem possível que uma grave situação resultasse daí entre a Noruega e os aliados. Mas antes que isso ocorresse, todo o quadro foi mudado pela ação da Alemanha.

Os preparativos alemães

Desde o estalar da guerra, a Alemanha se esforçara em manter os Estados escandinavos firmemente dentro de sua órbita. Devido a razões tanto econômicas como estratégicas, era-lhe da máxima importância preservar o acesso a esses países, bem como o evitar que seus adversários conquistassem tanto uma ascendência diplomática como um ponto de apoio militar na península. Esse esforço tinha sido aumentado pela guerra finlandesa e possibilidade de intervenção aliada. Não havia ilusões de que os aliados usariam tal intervenção para criar uma nova frente contra a Alemanha; e mesmo antes que os aliados chegassem à decisão de prestar auxílio armado à Finlândia já a Alemanha tinha iniciado seus preparativos para fazer abortar uma ação dessa natureza no norte.

Quando chegou a vez de proteger seus próprios interesses às custas dos neutros, os nazistas pela sua própria natureza gozaram de uma liberdade de ação que fôra negada aos aliados. Estes tinham baseado sua causa moral na manutenção da legalidade internacional e na preservação dos direitos de todas as nações, grandes ou pequenas. Essa posição efetivamente os impedia de cometer qualquer séria infração da soberania das países neutros. Podiam invocar a doutrina das represálias para justificar certos atos extraordinários, como por exemplo a apreensão das exportações alemães ou o lançar dos campos de mina ao largo da Noruega. Podiam arriscar-se a uma violação técnica de direitos teóricos num caso extremo, como o do Altmark. Mas somente uma necessidade premente os faria sacrificar sua vantagem moral em benefício de exigências militares. A Alemanha, entretanto, não tinha tais vantagens a perder. Na doutrina nazista, o bem-estar do Reich era o único padrão moral a ser considerado; e enquanto a Alemanha podia procurar utilizar contra os aliados os conceitos morais de democracia que estes alimentavam, sempre que servissem aos propósitos do Reich, não tinha intenção de deixar-se dominar por tais escrúpulos.

No começo do ano, portanto, a Alemanha se decidiu a impor seu domínio à Escandinávia, tanto para proteger sua posição como para estender a frente marítima contra a Inglaterra. Em fevereiro, as medidas preliminares estavam em pleno andamento e eram reunidos navios para transporte ao mesmo tempo em que se exercitavam tropas ao longo do Báltico em operações de desembarque. A anunciada intenção aliada de apertar o bloqueio estimulou essas medidas e provocou notas de sinistra advertência na imprensa alemã. Já a 16 de março, o Voelkischer Beobachter acentuara: "Os exemplos da Polônia e Finlândia mostram com ênfase esmagadora o que acontece aos pequenos povos quando desafiam as leis de seu espaço vital... A generosa atitude da Alemanha apresenta-se em flagrante contraste com o sórdido egoísmo com que a Inglaterra e a França procuram obrigar pequenos povos a servir os fins de sua estratégia." Ao fim do mês, comentando um discurso de Churchill, um jornal berlinense inquiria: "Que é a perda de algumas vidas neutras em comparação com a cínica tentativa de fazer morrer de fome as mulheres e crianças de toda uma nação? A Alemanha não esquecerá daqueles que compartilham este assassínio em massa, privando o povo alemão dos meios legais de defesa." E a 5 de abril, depois de uma conferência com Goebbels, os diretores dos jornais alemães começaram a prever uma nova fase da guerra e a aproximação da hora fatal dos neutros.

Essa campanha da imprensa foi sincronizada com a partida de uma expedição completa contra a Noruega. Embora o lançamento das minas aliadas tivesse dado ao ataque alemão a aparência de um contra-golpe, a coincidência era puramente fortuita, já que os navios alemães em alguns casos tinham partido para o seu destino pelo menos três dias antes. As indicações de que algo estava acontecendo tornaram-se aparentes a 8 de abril, quando um transporte alemão apinhado de soldados, o Rio de Janeiro, foi afundado por um submarino britânico ao largo de Lillesand, e uma flotilha alemã, informava-se, estava navegando com rumo norte através do Grande Belt. Mas enquanto o público ainda especulava em torno do significado desses acontecimentos, a Alemanha desfechava seu golpe. Ao alvorecer de 9 de abril, numa faixa de mil milhas, suas forças assaltavam a Noruega e a Dinamarca.

A ocupação da Dinamarca

Quando cruzaram a fronteira dinamarquesa em Flensburg, as tropas alemães transpuseram o que era quase a última fronteira não-fortificada da Europa. A Dinamarca, mais ainda do que seus vizinhos escandinavos, sentia-se compelida, em virtude de seu tamanho e posição estratégica, a depender mais da boa fé internacional do que de força armada para a sua possível defesa. Nação de menos de quatro milhões de habitantes, cuja única fronteira terrestre confinava com o Reich alemão, havia muito ela tinha reconhecido que não poderia oferecer resistência eficaz a uma invasão; e mesmo suas recentes confiscações para a defesa aérea eram mais um gesto significando o desejo de manter sua independência do que uma garantia real contra a conquista. Como o seu premier tinha dito na irradiação do Ano Novo: "O povo dinamarquês só tem um caminho a seguir. Temos de prosseguir no caminho da neutralidade e confiar no valor das promessas e acordos que conosco foram firmados."

O principal desses acordos era o pacto de não-agressão com a Alemanha. Em abril de 1939, em resultado da mensagem do presidente Roosevelt pedindo penhores de paz, Hitler tinha convocado os pequenos vizinhos da Alemanha para perguntar se eles se sentiam ameaçados, e oferecera-lhes a conclusão de tratados que pretensamente removeriam quaisquer receios que porventura alimentassem. Nem a Suécia, nem a Noruega tinham aceito a oferta, em vista dos exemplos de quão perigoso era para um país pequeno aceitar qualquer garantia alemã. A Dinamarca, entretanto, julgou que não podia; de modo algum, arriscar-se a ofender sua despótica vizinha; e a 31 de maio firmou com a Alemanha um tratado por meio do qual ambas prometiam que "em nenhuma circunstância recorreriam à guerra ou a qualquer outra forma de violência uma contra a outra."

Era essa uma garantia débil bastante, em vista dos antecedentes da Alemanha; contudo, era a única garantia que a Dinamarca possuía. Ela não tinha aliança e não recebera garantia alguma de qualquer outra nação. Com os restantes neutros ocidentais, durante anos tinha depositado suas esperanças na Liga das Nações e na perspectiva de um desarmamento geral; e quando tudo isso ruiu, somente lhe restou a esperança de que, num novo conflito, não oferecesse nem ofensas, nem tentações a qualquer facção que lhe pudesse pôr em perigo a neutralidade. Estava ela ligada com frouxos laços de cooperação econômica e política ao Grupo de Oslo, que consistia nas nações escandinavas e nos Países Baixos; mas esses Estados tinham evitado toda a idéia de aliança militar, por consentimento mútuo. Quando, em março, a Finlândia obteve da Suécia e da Noruega a promessa de que um pacto de assistência mútua se seguiria à sua paz com a Rússia, a Dinamarca foi deixada fora desse projeto, como sendo mais um passivo do que um ativo; e o próprio projeto desfez-se quando a Rússia lhe interpôs o veto decisivo. Em resultado, os Estados escandinavos todos ficaram sozinhos e isolados diante da nova acometida alemã.

A força que a Dinamarca poderia opor a tal acometida era insignificante. Em teoria, ela podia colocar cerca de 150.000 homens em pé de guerra; mas a maioria desses homens era deficientemente treinada, e os efetivos de paz disponíveis não passavam de 11.000 homens. Dificilmente, portanto, poderia causar surpresa o não ter o invasor encontrado resistência real alguma. As forças que se lançaram ao assalto em meia dúzia de pontos, por terra e mar, eram calculadas na ocasião em cerca de 40.000 a 50.000 homens. Apenas a Guarda Real, em Copenhague ofereceu breve resistência, que foi prontamente dominada. Pelas quatro horas da tarde, o país estava sob controle alemão.

Esse controle, de acordo com o governo alemão, não era o de um conquistador, mas sim de um protetor. Numa nota aos governos dos países invadidos, o Reich alegou que as medidas aliadas de bloqueio constituíam "um golpe destruidor na concepção de neutralidade". O Reich estava de posse de provas de que a Inglaterra e a França estavam planejando a invasão dos países nórdicos, e era claro que esses países não poderiam oferecer resistência eficaz. A Alemanha interviera portanto "para proteger a paz do norte contra todo o ataque anglo-francês e obter a sua garantia definitiva." Em vista desse altruísmo sem exemplos, a Alemanha esperava que os países em questão compreendessem seus motivos e não lhe oferecessem oposição. "Toda a resistência", - advertiu-lhes a Alemanha, - "teria de ser e seria quebrada por todos os meios disponíveis pelas forças armadas alemães que aqui aportaram, e levaria portanto a uma efusão de sangue absolutamente inútil."

Em face dessa perspectiva, a Dinamarca não tinha outro recurso senão ceder. Depois de conferenciar com o seu gabinete, o rei Cristiano deu à publicidade uma proclamação, também assinada pelo primeiro ministro, aceitando a situação sob protesto. A população foi solicitado evitar a resistência afim de se salvar o país dos desastres da guerra. Numa sessão especial do Parlamento, à tarde, o primeiro ministro fez uma declaração em que disse: "A Alemanha assegurou-nos que não tinha intenção alguma de violar a independência e integridade territorial da Dinamarca... Nosso povo sem dúvida perceberá a necessidade da atitude do governo... Só a Dinamarca, nada senão a Dinamarca importa agora."

Mas se o reino dinamarquês se mostrou, assim, uma presa fácil, com a Noruega a coisa foi muito diferente.

A invasão do Noruega

As forças navais alemães que se movimentavam simultaneamente contra seis portos noruegueses, assim procediam com o conhecimento de que o sucesso de sua empresa não dependia somente delas próprias. Reforços aguardavam-nas em vários pontos nos bojos de navios alemães que, chegando à Noruega ostensivamente com lastro, na realidade ocultavam as tropas e equipamentos mecanizados destinados à invasão. O elemento de surpresa, acentuado por essa tática, era uma grande vantagem inicial, permitindo a um punhado de homens tomar posições essenciais enquanto os noruegueses os olhavam atônitos. E, como toque final, havia os agentes que esperavam os nazistas dentro da Noruega e os quais, ao tempo marcado, realizaram as missões mais importantes que lhes tinham sido confiadas, assegurando assim a vitória.

O ministro do Exterior da Noruega reduziu mais tarde o alcance deste auxílio interno e alegou a 6 de maio que ainda estava para descobrir um autêntico caso de traição. "Pode custar a ser acreditado", disse ele, "mas fomos tomados de surpresa. Eles vieram sobre nós à noite, enquanto dormíamos." Há pouca dúvida de que grande parte das conversas sobre quinta-coluna e cavalos de Tróia era exagerada, e que em muitos casos a surpresa foi obtida não em conseqüência da deserção norueguesa, mas em resultado de falsas ordens expedidas pelos próprios nazistas. A cooperação interna, contudo, de qualquer fonte que partisse, permaneceu como sendo o aspecto vital de todo o quadro. A confiança mesma com que os navios de guerra alemães atravessaram os fiordes estreitos e sinuosos, sem se preocupar com barreiras de minas protetoras ou com o perigo das baterias de costa, demonstrava a completa certeza que tinham de que o seu caminho já fôra eficazmente preparado.

Em Narvik, por exemplo, os nazistas foram auxiliados tanto pelas atividades do cônsul alemão como pela ação do comandante militar norueguês. O primeiro manejou os fios dos preparativos, inclusive a presença de cargueiros com o seu carregamento oculto de tropas. O último deixou de tomar as providências e de emitir as ordens que pudessem tornar a resistência possível. Dois vasos de guerra noruegueses, surpreendidos no porto de Narvik, abriram fogo conta os navios alemães quando surgiram à vista através de forte temporal de neve; mas foram quase que imediatamente torpedeados, e a própria cidade estava ocupada dentro de meia hora sem que um só tiro fosse disparado de terra. Em Trondheim, de conformidade com um comunicado norueguês, os vasos de guerra alemães tinham-se rodeado de uma flotilha de pequenos barcos noruegueses que impediu os fortes de Agdenes de abrir fogo. Também neste caso, a cidade foi ocupada sem resistência; mas o forte de Hegre, ao leste, ofereceu uma resistência que prosseguiu por toda a campanha subseqüente. Bergen, Stavanger e Kristiansand foram da mesma forma capturados após uma resistência relativamente pequena.

Era em Oslo, contudo, que estava a chave de toda a operação. Neste caso também, uma combinação de surpresa e de falsas ordens reduziu a resistência ao mínimo. Houve breve luta no aeroporto, e os fortes de Oskaraorg impuseram curta resistência. Mas mesmo a perda de dois vasos de guerra na passagem pelos estreitos deixou de paralisar a expedição alemã, que, efetivamente, ocupou a capital durante a manhã de 9 de abril.

As autoridades norueguesas souberam à meia-noite que navios alemães tinham entrado no fiorde, e o gabinete se reuniu no ministério do Exterior, às 5 da madrugada, com as hostilidades já se desenvolvendo, chegou o ministro alemão para apresentar a nota que informava a Noruega de que estava sendo tomada sob a proteção benevolente do Reich e exigia a completa rendição do país ao controle alemão. Com certa relutância, o enviado alemão permitiu ao ministro das Relações Exteriores, Koht, consultasse seus colegas antes de receber uma resposta. A resposta foi uma rejeição imediata, que envolvia a certeza de hostilidade. O governo se transferiu imediatamente para Hamar e convocou o Storting (Parlamento da Noruega) para informá-lo dos últimos acontecimentos e receber sua aprovação. A tarde, já na iminência de um ataque alemão a Hamar, o governo transferiu-se de novo, dessa vez para Elverum.

Nem todas as possibilidades de acordo, entretanto, haviam sido desvanecidas. Em Elverum, foi recebido um pedido do ministro alemão, dr. Brauer, para uma audiência com o rei Haakon. O dr. Brauer era um homem em que o professor Koht tinha considerável confiança, e parecia possível que novas e mais aceitáveis propostas fossem apresentadas. O Storting, portanto, concordou em associar três de seus próprios componentes com o professor Koht, e o dr. Brauer foi informado de que seria recebido no dia seguinte.

Havia certa dificuldade em torno da audiência, já que os alemães, de modo mais sem tato, assaltaram Elverum antes que ela se pudesse realizar. Foi somente a sua recusa em mãos dos noruegueses que capacitou o ministro alemão a obter a entrevista que tinha solicitado. Ficou demonstrado, entretanto, que a mesma era inútil. O dr. Brauer informou o rei, e depois a delegação, de que a mudança de situação obrigava a novas exigências. A principal destas era a da resignação do atual ministério e do estabelecimento de um novo governo sob a chefia do major Vidkun Quisling, líder do Partido Nazista da Noruega. Conquanto o sr. Koht parecesse pronto a considerar uma mudança governamental que tomasse possível a colaboração com a Alemanha, essa submissão a um títere desacreditado era uma exigência que ia longe demais. O rei insistiu em que não poderia nomear um governo que não gozasse da confiança do povo, e o regime Quisling estaria em pé de igualdade com o que os russos haviam colocado na região da Carélia após a invasão da Finlândia. Consentiu em reservar a resposta para depois de consultar seu governo legal, mas este concordou com a sua decisão, que foi comunicada ao dr. Brauer na noite de 10 de abril. A pergunta do ministro alemão sobre se isso significava que a resistência norueguesa continuaria, a resposta foi: "Sim, o mais demoradamente possível".

Havia, de fato, limites muito sérios à extensão do tempo que a Noruega poderia esperar manter-se por si própria. Mesmo em condições favoráveis ela dificilmente poderia reunir mais que 100.000 soldados numa população de escassos três milhões de habitantes. Tomada de surpresa como fôra, parecia improvável que mais do que a metade desse número estivesse à sua disposição. Os alemães, a 11 de abril, tinham talvez 50.000 homens na Noruega, bem equipados com armas mais leves, ainda que não providos plenamente de tanques e artilharia pesada. A tarefa imediata dos noruegueses era opor a maior barreira possível a essas forças modernas e particularmente evitar que seu corpo principal, em Oslo, estabelecesse junção efetiva com as guarnições muito mais fracas que tinham ocupado os outros portos noruegueses.

Isso significava, com efeito, evitar um avanço sobre o norte ou leste do fiorde de Oslo. A marcha alemã para o oeste pouco mais poderia fazer do que reforçar o controle de um breve trecho costeiro. A marcha para o leste entretanto, abriria as comunicações com a fronteira sueca; e um avanço bem sucedido para o norte logo colocaria os invasores em posição de cortar o país em dois e consolidar o seu domínio em toda a Noruega meridional.

O imediato esforço norueguês constituiu, portanto, no traçar de um anel em torno dos alemães que se lançavam nessas duas direções. A marcha para o norte seguia pelo vale de Glommen, conduzindo às junções ferroviárias da Hamar e Elverum e guardado a leste pela fortaleza de Kongsvinger. A sudeste de Oslo, os alemães desembarcaram tropas à margem oriental do fiorde e abriram caminho para o interior. Essas eram forças aparentemente pequenas mas tinham diante de si pouco mais que improvisados destacamentos noruegueses. A 15 de abril, os alemães proclamaram ter atingido a fronteira sueca e estar no comando das defesas de ambas as margens do fiorde de Oslo; e no dia 18, a resistência norueguesa nessa zona parecia ter chegado ao fim.

Entrementes, os alemães pareciam ter-se ocupado da regularização de seus instrumentos de autoridade na Noruega. A completa ineficácia do major Quisling mesmo como títere ficou revelada quando, a 15 de abril, ele foi substituído por um antigo governador provincial e ministro da Justiça, Ingolf Christensen. Isto indicava ainda a esperança de que o Reich seria capaz de manter a ficção de um governo independente a exercer autoridade efetiva e aceitar a proteção alemã, mas essa esperança rapidamente se desfez. A 19 de abril, ele recebeu novo golpe quando Hitler ordenou a expulsão do ministro norueguês de Berlim. E a 24 de abril, a Alemanha anunciou sua soberania irrestrita sobre os distritos ocupados da Noruega e nomeou um comissário responsável apenas perante o próprio Hitler.

A área que ela governava, entretanto, era distintamente limitada. As guarnições nazistas obtiveram pouco sucesso na extensão de seu controle em torno dos portos ocidentais. Ao norte de Oslo, os alemães exerciam pressão sobre os vales de montanhas com unidades avançadas, mas o seu controle além de Hamar era ainda precário. Os noruegueses continuavam a opor encarniçada resistência, e começava a chegar-lhes socorros de parte dos aliados. O curso futuro dos acontecimentos dependeria agora do êxito que a marinha britânica tivesse em cortar as comunicações alemães com a Noruega e em abrir o caminho para o desembarque de uma força aliada considerável.

As operações navais

As vésperas da campanha norueguesa, o corpo principal da Home Fleet encontrava-se em Scapa Flow. Desde a perda do Royal Oak, as defesas desse ancoradouro tinham sido reforçadas, e a frota havia estado operando daquela base durante as últimas cinco ou seis semanas. Periodicamente durante esse lapso os alemães lançavam ataques aéreos contra Scapa, e dois deles tiveram lugar na semana que precedeu a invasão, além de um reide fracassado para atingir as Orcades. Mas na última dessas visitas, a 8 de abril, a frota não mais estava lá.

A razão era a presença no mar de unidades navais alemães. No domingo, 7 de abril, aviões britânicos de reconhecimento avistaram uma divisão naval alemã, incluindo cruzadores de batalha, rumando para norte ao largo de Heligoland. Logo que essa informação foi recebida, a frota pôs-se ao mar em busca do inimigo. Havia todas as perspectivas de que os navios alemães, mesmo que não fossem alcançados, seriam impelidos para uma armadilha; é que ao largo da Noruega setentrional se encontrava no momento poderosa força britânica preparando-se para o cumprimento da tarefa de espalhar novos campos de mina ao alvorecer do dia seguinte.

O fato dos alemães terem escapado foi devido a uma combinação de boa sorte e mau tempo. A sorte do destróier britânico Glowworm mostrou quão limitada eram as possibilidades da frota alemã. Esse navio perdera um homem, caído ao mar, no domingo, dia 7 de abril, e retardou-se por algum tempo à sua procura. No dia seguinte estava rumando para norte a fim de unir-se ao resto da força quando se encontrou com dois destróieres alemães. Mal se tinha engajado na luta e outro navio surgiu pelo lado norte - o novo cruzados alemão Admiral Hipper. Antes de poder perceber e informar que tinha topado com a principal frota alemã, o Glowworm foi posto a pique, com a perda do grosso de sua tripulação.

Novamente, no dia seguinte, a esquadra britânica roçou as bordas da força inimiga. Ao romper do dia de 9 de abril, terça-feira, à hora marcada para o ataque da expedição alemã, o cruzador de batalha Renown avistou através da tempestade de neve que então caíra ao largo de Narvik o navio de guerra alemão Scharnhorst, acompanhado do Admiral Hipper. De uma distância de 16.000 m, o Renown atingiu o Scharnhorst com dois impactos, um dos quais pôs fora de ação o fire control da belonave alemã; mas o Scharnhorst, auxiliado pela tempestade e por uma cortina de fumaça lançada pelo cruzador que o acompanhava, conseguiu escapar-lhe de vista, embora o Renown estivesse fazendo vinte e quatro nós no mar forte e se tivesse distanciado bastante de seus destróieres. No decurso da ação, ele foi atingido por uma granada que o perfurou na altura da linha d'água, mas não explodiu e não causou baixas a bordo.

Contudo, apesar desses exemplos de boa sorte, os alemães pagaram um preço substancial em perdas navais pelo sucesso de sua empresa. O saldo final não pôde ser calculado com precisão. A afirmativa norueguesa de ter afundado o navio de guerra Gneisenau no fiorde de Oslo era encarada pelos observadores com certa cautela. Um submarino britânico disputou com as baterias de costa norueguesas a glória do afundamento do cruzador Karlsruhe. O cruzador que aviadores britânicos acreditavam ter posto a pique no porto de Bergen era, de acordo com testemunhas oculares, o Köln, que já tinha sido avariado por um torpedo. Os alemães admitiram a perda do Blücher e do Karlsruhe, e parecia certo que o Emden tinha sido afundado por um lança-minas norueguês e que o Admiral Scheer tinha sido posto fora de ação por um submarino britânico. Uma autoridade naval britânica calculou as perdas navais nazistas ao fim da primeira semana em 50% de sua força em navios de guerra de primeira classe, 33% dos cruzadores pesados, 83% dos cruzadores leves e 43% dos destróieres. Mesmo se permitindo uma razoável margem de erros, era certo que a frota alemã tinha sido anulada como força ofensiva eficiente.

O significado disso, entretanto, poderia ser facilmente superestimado. A frota alemã de superfície, mesmo na plenitude de sua força, jamais esteve em condições de desafiar a marinha britânica. Na melhor das hipóteses, poderia ser uma força de corsários; e mesmo sob esta forma de atividade, seus sucessos tinham sido tão pequenos que podiam ser considerados desprezíveis. Se, entretanto, pôde ser utilizada para assegurar a conquista da Noruega pelos alemães, com as suas perspectivas de bases aéreas e de submarinos dentro de pequeno raio de alcance da Inglaterra, a perda de um terço ou mesmo da metade de seus efetivos podia não parecer um preço alto demais a pagar. Uma vez estabelecidos nessas posições, os alemães podiam confiar mais na sua força aérea e submarina do que nas belonaves de superfície para proteger suas comunicações e anular todos os esforços da potência marítima britânica para desalojá-los.

Ficou demonstrado que os cálculos alemães em ambos os casos, haviam sido feitos sobre bases bastante razoáveis. Os golpes aliados nas comunicações inimigas no Skaggerak eram rápidos e vigorosos e suas fases iniciais foram tão eficazes, que os alemães na Noruega ficaram dependendo em grande parte do transporte aéreo para a obtenção de reforços. Mas a natureza das operações aliadas era seriamente limitada pelas circunstâncias. Conforme Churchill explicou mais tarde, a potencialidade aérea alemã significava que uma continuada patrulha de superfície naquela zona teria resultado em perdas capazes de conduzir a um desastre naval. A confiança foi, portanto, posta num bloqueio submarino completado por minas. Os submarinos britânicos receberam ordens de afundar todos os navios alemães que se lhes apresentassem. Foram lançadas minas, não somente no Skaggerak e no Kattegat, mas também ao longo da costa báltica da Alemanha. Essas diversas atividades resultaram na perda para os alemães, no decorrer de três semanas, de pelo menos vinte e oito navios de transporte e abastecimento e sérias avarias em uma dúzia de outros. Mas mesmo ao preço de tais perdas, os navios alemães continuavam a circular, e a relativa segurança de suas comunicações, abalada pelos assaltos iniciais, foi gradualmente restabelecida.

A possibilidade de desalojar imediatamente os alemães por meio de um ataque direto também acarretava graves riscos. Embora as guarnições alemães dos portos fora de Oslo raramente se compusessem no começo de mais que dois mil soldados, o avanço inicial lhes dera uma vantagem real. Navios invasores teriam de enfrentar não somente ataques aéreos em águas apertadas em que havia pouco espaço para manobras, mas também o perigo adicional representado pelas baterias da costa e pela força naval inimiga emboscada nos fiordes profundamente recortados. Um ataque a Oslo, como os nazistas estavam no comando dos fortes, teria sido suicídio. O ataque a Trondheim foi tomado em consideração, e uma força que incluía tropas canadenses foi aprontada para a expedição, marcada para o dia 25 de abril. Mas os êxitos iniciais no desembarque de tropas em Andalsne e Trondheim decidiram os peritos militares a se concentrarem nesses pontos, de preferência a um ataque direto a Trondheim, que oferecia riscos de sérias perdas.

No caso de Narvik, a situação se desenvolveu de modo diferente, graças em grande parte à iniciativa do comandante da flotilha britânica de destróieres naquela região. A 9 de abril, essa flotilha de cinco navios, sob o comando do capitão Warburton-Lee, estava patrulhando o fiorde Ocidental, entre as ilhas de Lofoten e o continente. Fazendo reconhecimentos, o comandante soube que Narvik já estava firmemente dominada e que sendo os destróieres nazistas dos maiores e mais modernos - força que teria quase o dobro da potência de fogo da divisão britânica - se encontravam no porto. Ao saber dessa situação, o Almirantado, se bem que particularmente ansioso por destruir os navios de abastecimento que acompanhavam a expedição alemã, hesitava em ordenar um ataque. Mas quando foi dito ao capitão Warburton-Lee que ele próprio deveria ser o único juiz, e que o Almirantado o apoiaria fosse qual fosse a sua atitude, pouca dúvida poderia haver sobre o que sucederia.

Às primeiras horas de 10 de abril, a flotilha iniciou a penetração do fiorde. Esperava com certeza encontrar o canal minado e o porto defendido pelas baterias de terra. Nevava tão fortemente que, como um oficial informou, "Jamais vimos nenhum dos lados do fiorde, exceto no começo, quando quase o abalroamos uma vez". Sua entrada aparentemente pegou as forças alemães completamente de surpresa, pois que foram capazes de afundar os navios de abastecimento no porto antes de terem sido forçados a retirar pelo fogo do inimigo mais forte. O destróier Hunter foi afundado; o Hardy foi atingido tão seriamente que teve de ser encalhado e abandonado (seus sobreviventes meteram-se terra a dentro e foram libertados quatro dias mais tarde); o Hotspur ficou avariado, mas conseguiu sair com os restantes dois navios. Na retirada, coroaram o feito com o afundamento de um transporte alemão de munições. Deixaram atrás de si um destróier alemão afundado e três em chamas.

Essa façanha aplainou o caminho para a eliminação da força naval alemã três dias mais tarde. A 13 de abril, nove destróieres britânicos, acompanhados pelo couraçado Warspite cuja tarefa era silenciar as baterias de costa, penetraram em Narvik, onde se encontravam então sete destróieres alemães. Três destes foram destruídos no decurso de um encontro que durou duas horas e meia. Os restantes escaparam pela estreita entrada de 16 km do fiorde de Rombaks rumo ao leste de Narvik, sempre perseguidos pelos destróieres britânicos. Um dos navios alemães, já gravemente danificado, foi incendiado; os restantes três foram encalhados e perfurados pelos respectivos tripulantes, que fugiram para terra. Três dos destróieres britânicos ficaram danificados durante a ação; mas a força alemã tinha sido varrida, e com ela desaparecera toda a esperança alemã de reforçar sua guarnição por mar.

Mas Narvik mesma ainda não estava em mãos aliadas; e embora estivesse, sua situação longínqua e a carência de comunicações terrestres tê-la-ia tornado quase inútil como base de operações militares contra as principais forças alemães. O patrulhamento naval ao largo da costa ocidental evitava que quaisquer reforços substanciais alcançassem as guarnições de Bergen e Trondheim. Mas expulsá-las dali exigia a realização de operações militares; e agora restava a marinha tornar possível o desembarque eficaz de uma força de efetivo considerável e bem equipada, se se quisesse expulsar os invasores da Noruega.

A expedição aliada

A própria natureza da situação exigia uma expedição de tal ordem. Teoricamente, os aliados não tinham mais obrigações diretas para com a Dinamarca e a Noruega do que tiveram com a Finlândia. A coisa mais aproximada a uma garantia era a referência de Chamberlain à Suécia e Noruega no decurso dos debates finlandeses a 19 de março: "Nada irá ou poderá salvá-las a não ser a determinação de se defenderem e de se unirem com outros que estão prontos a auxiliá-los na sua defesa." Mas por seus próprios interesses, os aliados não poderiam manter-se alheios à invasão alemã da Escandinávia. Foi imediatamente anunciado que os aliados tinham decidido estender daí em diante sua completa assistência à Noruega e conduzir a guerra lado a lado com eles. Esta garantia foi repetida por Chamberlain a 9 de abril. A 11 de abril, Churchill disse a respeito. dos noruegueses: "Nós os auxiliaremos da melhor forma que pudermos. Conduziremos a guerra em comum com eles, e somente faremos a paz quando os seus direitos e liberdade estiverem restaurados". E a 13 de abril, o rei George enviou uma mensagem pessoal ao rei Haakon, assegurando-lhe que os aliados estavam dando à Noruega todo o auxílio que lhes era possível.

Quando os primeiros dias penosos se arrastavam, esse auxílio pareceu custar muito a chegar. Os alemães tinham alegado que a sua ocupação da Noruega e Dinamarca visava apenas antecipar uma iminente invasão aliada. A 27 de abril, com a apresentação teatral mas inconvincente, pelo sr. Ribbentrop, de "provas documentárias", esta lenda avolumou-se até o ponto em que os nazis asseguravam que uma expedição aliada tinha-se feito ao mar para logo retroceder à notícia da ação alemã. Para tais fantasias, a carência de imediata ação aliada era a única resposta convincente, e servia para colorir a hipótese de que a Grã-Bretanha e a França tinham sido de fato escolhidos em sono pelo golpe alemão. Churchill deu algum apoio a isso quando a 11 de abril, depois de admitir que sabiam há meses dos preparativos alemães, insistiu em que os aliados não tinham meios para saber qual era a verdadeira finalidade desses preparativos. Isso sem dúvida significava subestimar a perspicácia sua e de seus colegas. A verdadeira natureza dos erros de previsão aliados foi talvez melhor expressa numa nota do correspondente militar do Times:

"Quando a campanha da Finlândia chegou ao fim, o corpo principal da força reunida para ir em auxílio daquele país foi transferido para outra parte, juntamente com a sua artilharia anti-aérea. A divisão 49 e certas outras tropas foram mantidas, entretanto, estacionárias, com o objetivo de serem desembarcadas nos principais portos noruegueses na eventualidade de uma invasão alemã vinda do sul. A captura desses portos pelos alemães não foi prevista, e era considerado que os destacamentos relativamente pequenos designados para esse propósito seriam suficientes para mantê-los até que outras forças pudessem ser desembarcadas sob a sua cobertura... A invasão alemã não foi, portanto, uma surpresa completa em si mesma; mas o seu alcance e o seu êxito invalidaram completamente o plano original".

Os aliados, em conseqüência, viram-se à frente de uma operação que é tradicionalmente uma das que oferecem sérias dificuldades - o desembarque de tropas numa costa hostil enfrentando a resistência inimiga. As recordações pouco confortadoras da frustrada tentativa de forçar os Dardanelos, que começaram a avivar-se a essa perspectiva, de modo nenhum se tranqüilizaram à contemplação do terreno norueguês. Essa costa montanhosa, guardada por numerosas ilhas e sulcada por enseadas profundas e sinuosas, oferecia um problema formidável. Os estrategistas ingleses, como se vê pela citação acima, haviam compreendido perfeitamente as vantagens que essa costa oferecia para a defesa. Eles tinham agora de encontrar um meio de levar de vencida a resistência que aí seria oposta pelo inimigo.

A chave de toda a operação, estava claro, era o porto de Trondheim. Oslo, para o momento, estava fora de cogitações; e um porto como Bergen, circundado por montanhas que quase o isolavam do interior, oferecia vantagens relativamente menores sob o ponto de vista estratégico. De Trondheim, por outro lado, o acesso seria possível - se bem que de forma alguma fácil - ao principal sistema de comunicações da Noruega meridional. Um exército que obtivesse um forte ponto de apoio nessa região poderia ter esperança de estabelecer uma linha que cortasse o sul do norte e oferecesse uma base de que as forças aliadas pudessem varrer, vindas do planalto central, as posições alemães ao longo da costa.

A primeira tentativa, entretanto, não foi um assalto frontal, mas um movimento para tomar a posição de Trondheim pela retaguarda. Nos dias 14 e 17, foram desembarcados destacamentos navais em Namsos e Andalsnes, respectivamente; nos dias 16 e l8, eles foram seguidos pelos primeiros contingentes de tropa. Seu imediato objetivo era obter o domínio da estrada de ferro e assim evitar uma junção entre as forças de Trondheim e o grosso das forças alemães e ao mesmo tempo, obter comunicações que lhes permitissem entrar rapidamente em contacto com as forças norueguesas e tomar posições avançadas, na esperança de mantê-las contra os alemães até que chegasse o grosso das forças aliadas.

A essa data havia uma corrida contra o tempo, uma corrida que possivelmente já fôra perdida. Era verdade que os alemães, apesar de uma semana de lutas, não tinham ainda estabelecido comunicações entre o grosso de suas tropas e as guarnições da costa. Esse era um tributo notável à qualidade da resistência norueguesa, mas os defensores estavam sendo fortemente comprimidos pelas forças alemães que exerciam pressão ao norte de Oslo e a leste de Trondheim. A 16 de abril, o ministro norueguês em Londres lançou um apelo no sentido de que os aliados agissem rapidamente e assinalou a necessidade urgente de auxílio contra os alemães no sul da Noruega meridional.

O fato era que a força alemã estava então crescendo com uma rapidez que fazia com que a conservação das posições inicialmente ocupadas pelos aliados fosse uma possibilidade. O processo de restabelecer o controle sobre o Skaggerak tinha evoluído o bastante para fazer que suas comunicações desfrutassem de uma segurança razoável. Os alemães estavam agora recebendo, não somente reforços, mas o equipamento mecanizado que permitia às forças avançadas fazer rápidos progressos para tomar importantes posições, e os noruegueses podiam ver a perspectiva de que a tática que tinha sido tão bem sucedida na Polônia seria repetida às custas suas.

Contra isso, as primeiras forças britânicas podiam oferecer pouco, no tocante ao equipamento pesado. Destacamentos leves eram mandados às pressas para o interior a fim de se juntarem aos noruegueses e ajudá-los a barrar o avanço alemão de Hamar a Lillehammer, mas sua inferioridade em número e equipamento tornou impossível consolidassem suas posições. Ao mesmo tempo, as unidades navais alemães no fiorde de Trondheim puderam manter sob o fogo de sua artilharia pesada as forças aliadas que avançavam para o sul, vindas de Namsos, e forçaram-nas a recuar para Steikjer. E a perspectiva de que tais desvantagens fossem em breve levadas de vencida era seriamente ameaçada pela superioridade alemã no ar.

O início da campanha mostrou o domínio do poder aéreo sobre o poder marítimo de forma mais direta que a registrada antes. Os pesados ataques aéreos às forças navais britânicas ao largo de Bergen, a 9 de abril, representaram a primeira batalha real entre navios e aviões em número considerável e em alto mar. Fazendo-se a comparação, em vista dessa batalha, entre bombardeiros e navios de guerra, o resultado penderia decisivamente favorável a estes últimos.

Sob esse aspecto, a bomba mais poderosa lançada durante a guerra foi uma de 1.000 libras, que alcançou Rodney com um impacto direto. A pesada armadura da coberta do vaso de guerra resistiu completamente ao choque, e o único dano causado pela explosão foi ferimentos em três oficiais e sete marinheiros. Dois outros cruzadores foram atingidos, mas ficaram apenas levemente danificados por estilhaços, e permaneceram em seus postos junto à frota.

As unidades menores e mais levemente blindadas não podiam esperar escapar tão facilmente. Contra impactos diretos, que eram apenas os considerados fatais, tinham a proteção da velocidade, principalmente. Nesse mesmo encontro, cinco ataques foram desfechados diretamente contra o destróier Aurora, em face do pesado ataque anti-aéreo, mas nenhum deles alcançou seu objetivo. O destróier Ghurka, por outro lado, foi fortemente atingido e teve de ser abandonado. Foi contra unidades dessa classe que os aviadores alemães obtiveram seus raros êxitos durante a campanha subseqüente. Tudo o que conseguiram foi infligir certas avarias a um cruzador durante o bombardeio de Stavanger, a 17 de abril, mas assim mesmo esse navio foi capaz de chegar a um porto. Os pilotos alemães pareciam ter pendor para superestimar as vitórias sobre os navios que atacavam, e suas afirmações de vitórias acabaram por incluir o afundamento dum vaso de guerra da classe do Queen Elizabeth, o de um cruzador da classe do York e um porta-aviões. Mas o Almirantado desmentiu a perda de navios dessa classe durante a campanha; e em vista da fantástica qualidade das anteriores afirmações alemãs desse caráter, sua ulterior exuberância deixava pouca impressão nos observadores destacados.

O poderio aéreo, portanto, mostrou-se incapaz de disputar eficazmente o domínio dos mares. A frota britânica podia manter abertas as comunicações marítimas, o que era essencial para a expedição aliada. Mas o seu poder estacava diante dos portos; e era nos portos, pontos de junção das operações marítimas e terrestres, que a força aérea alemã agia com o máximo de sua eficiência.

Esses portos estavam longe de serem adequados, mesmo sob as melhores condições. Um ataque bem sucedido a Trondheim teria assegurado um bom ancoradouro com modernas instalações portuárias. A decisão dos aliados de confinar seus esforços iniciais a Namsos e Andalsnes deixou-os dependentes de simples aldeias de pesca, cujas poucas docas não passavam de toscas construções de pedra ou mesmo de madeira, carecendo completamente de guindastes mecânicos e de outras necessárias facilidades de descarga. Sua vulnerabilidade a ataques aéreos era acentuada pela incapacidade de enviar material anti-aéreo com os primeiros destacamentos aliados. Eram esses os pontos que os alemães golpeavam com plena fúria. A 19 de abril, eles desfecharam contra Namsos um ataque que durou sete horas, e que foi seguido de outros que continuaram durante os três dias seguintes. "Vi Chapei, Madrid, Abo e Rovaniemi" escreveu um correspondente francês, "depois de ataques aéreos. Sei o que um bombardeio é, mas o arrasador da destruição de Namsos excedia tudo que tinha visto." Os Ataques a Andalsnes, se bem que menos espetaculares, eram quase da mesma eficácia. Quando o equipamento antiaéreo foi posto à disposição, os dois portos estavam em ruínas.

As tropas aliadas que tinham avançado para o interior foram expostas a assaltos igualmente terríveis. Elas receberam os ataques coordenados de tropas, tanques e bombardeiros de mergulho; e em Steinkjer enfrentaram, além disso, o fogo dos navios de guerra alemães que se encontravam no fiorde de Trondheim. O último fator, juntamente com o desembarque de forças navais alemães que ameaçavam cortar os primeiros destacamentos e avançar com rumo sul em direção a Levanger, praticamente cortaram o braço setentrional da pinça aliada que se movia contra Trondheim. Foi deixado aos destacamentos meridionais capturar primeiro as vitais junções ferroviárias de Dombaas e de Stoeren, para então investir para o sul com a maior rapidez possível a fim de evitar um avanço alemão sobre os principais vales em direção a Trondheim.

Essas forças aliadas estavam mal equipadas para semelhante tarefa. Careciam de equipamentos mecanizados e de artilharia pesada. Encontravam-se sem uma dotação adequada de canhões antitanques e anti-aéreos. Na melhor das hipóteses, elas podiam esperar agir como força retardadora contra o inimigo. E a possibilidade de receberem reforços de pendia mais uma vez da situação no ar.

Isto significava o estabelecimento de bases aéreas aliadas na Noruega. Houve desde o princípio tentativas de anular o poderio aéreo alemão com ataques às suas principais bases. Stavanger esteve sob quase constante bombardeio, e houve reides freqüentes contra campos como Fornebu, perto de Oslo, e Aalborg, ao norte da Dinamarca. Mas apesar dos danos extensos causados a esses campos, os aviões nazistas continuavam a operar, e tornou-se claro que se os bombardeiros não podiam controlar as vias marítimas, muito menos podiam impedir a atividade inimiga. Nem era possível a caças operar com eficiência de bases britânicas distantes 500 km. Os caças bi-motores que eram utilizados desempenhavam bem a tarefa quando em encontros com o inimigo. Mas não podiam permanecer no ar por muito tempo, e eram provavelmente menos rápidos que os bombardeiros alemães, como por exemplo os Junkers Ju.88. Podiam operar patrulhas limitadas ou atacar objetivos definidos. Mas para a defesa, era necessário aviões de caça que pudessem permanecer por mais tempo no ar e erguer vôo assim que o inimigo surgisse. Mas tal força não podia operar sem bases, e os alemães tinham capturado todas as bases importantes da Noruega. Algumas tentativas foram feitas pelos aliados para o uso de lagos gelados, mas se mostraram insatisfatórias; e uma base improvisada na área de Dombaas foi descoberta e bombardeada até que ficou quase inútil. Por fim, tornou-se absoluta a superioridade aérea nazista na Noruega.

Tal fato selou o destino da expedição aliada. A superioridade alemã tanto em efetivos como em potência de fogo foi aumentada sem cessar e à medida que as forças nazistas avançavam. A 25 de abril, elas investiram pelo Osterdal - o oriental dos dois vales principais - contra Tynset e estavam a distância de ataque de Roeros; e no Gudbrandsdal, o vale paralelo a leste, os aliados foram obrigados a recuar de Otta a Dombaas. Lá então conseguiram deter o inimigo; mas os alemães no Osterdal lançaram duas colunas mecanizadas através de caminhos montanhosos em direção a um ponto da estrada de ferro entre Dombaas e Stoeren. Era um movimento que ameaçava efetuar ligações entre a força atacante e os alemães de Trondheim e cortar as forças aliadas em duas. Somente reforços imediatos poderiam salvar a expedição aliada, agora numa inferioridade de quase dez para um. Mas o Alto Comando chegou à conclusão de que a remessa de reforços era impossível, em vista da supremacia aérea dos alemães; e embora fosse informado que o general de Wiart, a 29 de abril, tinha assegurado que "as tropas britânicas têm tudo que precisam" a decisão tomada foi, entretanto, a de retirar as tropas a fim de salvá-las da destruição. Na noite de 1 para 2 de maio, a retirada foi efetuada de Andalsnes, e na noite seguinte de Namsos. Com exceção de grupos esparsos de noruegueses que ainda resistiam, a totalidade da Noruega meridional foi deixada nas mãos dos nazistas. Com uma chuva final de bombas sobre a expedição em retirada, os alemães afundaram três destróieres - um britânico, um francês e um polonês, - mas, de acordo com o comunicado do Almirantado, os transportes de tropa não foram atingidos.

O comunicado do Almirantado sobre a retirada sugeria, entretanto, que a luta não tinha sido completamente abandonada, e que seriam realizados esforços noutros pontos da Noruega. Isto significava claramente que se concentrariam em Narvik. Aqui, a batalha naval de 13 de abril tinha resultado na perda do controle alemão sobre o porto, mas não sobre a cidade propriamente dita. Não foi senão dois dias mais tarde que os aliados começaram a desembarcar tropas, e a protelação deu aos alemães tempo não somente para consolidar suas posições, como também para capturar as elevações de Rombak, a leste das pequenas forças norueguesas lá fixadas, e estender o seu controle ao longo da estrada de ferro que conduzia à fronteira sueca. Quando, portanto, as forças militares aliadas chegaram, encontraram a posição forte danais para um assalto frontal. Ao invés disso, desembarcaram tropas nos dois lados do fiorde das cercanias da cidade, e iniciaram o vagaroso processo de envolvimento da guarnição nazista.

Ficou demonstrado que essa operação nada tinha de fácil. A guarnição alemã não tinha perspectiva imediata de ser substituída, pois que todas as tentativas de remessa de reforços por mar foram interceptadas, e os esforços germânicos para avançar de Namsos por terra eram retardados pelas forças norueguesas e aliadas que operavam de Mo e Bodoe. Mas a posse pelos alemães das elevações de Rombak tornou possível um desembarque ocasional de aviões de transporte, e outros reforços chegaram de pára-quedas. Suprimentos, incluindo artilharia anti-aérea, eram também deixados cair de pára-quedas; e o bombardeio alemão, juntamente com a posse alemã dos fortes da costa, envolviam um vagaroso processo de redução, antes que as forças navais aliadas pudessem entrar no porto em segurança. A perda do pequeno cruzador Curlew, equipado com peças anti-aéreas, mostrou o quão arriscado era para os navios operarem nessas águas estreitas e difíceis.

Apesar de tudo, as forças aliadas, que haviam crescido até chegarem a um número orçado em 15.000, gradualmente se concentraram. A 28 de maio, foi lançado um ataque que durou vinte e quatro horas; e no dia seguinte, os aliados puderam anunciar que a cidade de Narvik estava enfim em seu poder.

Mas esse não foi, de modo algum, o fim da história. O grosso das forças alemães tinha deixado a cidade antes da mesma ser capturada e recuado ao longo da ferrovia para as suas posições em torno de Bjoernfjell. Era claro que elas não estavam ainda dispostas a entregar esses meios de acesso às minas de ferro suecas sem uma luta que, devido a natureza do terreno, poderia muito bem prolongar-se indefinidamente. Com todo o resultado do conflito - um resultado que incluía o destino da própria Noruega - em jogo na frente ocidental, os aliados se decidiram a evitar mais desgastes de força e a evacuar toda a Noruega. "A dura necessidade da guerra", disse o rei Haakon na sua proclamação de 10 de junho, "forçou os governos aliados a conjugar todas as suas forças para a luta em outras frentes, e eles precisam de todos os homens e de todo o material nessas frentes." Avisou, portanto, o seu povo de que era inútil continuar a resistência e ao mesmo tempo lhe garantiu que o seu rei e governo continuariam a luta fora do país, expressando a confiança em que "o povo norueguês, juntamente com outros povos que agora estão sofrendo sob o jugo alemão, reaverão uma vez mais os seus direitos e liberdade." Como toque final trágico à evacuação, o Almirantado foi obrigado a anunciar a perda de um navio-tanque, um navio de abastecimento, dois destróieres e o porta-aviões Glorius - afundado, de conformidade com informes alemães, pelos vasos de guerra Scharnhorst e Gneisenau.

As aquisições da Alemanha

Nestas operações, intensamente criticadas, foi engajada apenas uma pequena parte das forças adversárias de cada lado. Não se considerava, aliás, a Noruega como um alvo que justificasse o risco de maiores perdas. Hitler podia arriscar navios de guerra, que lhe eram de pequena utilidade em qualquer parte, mas o Almirantado se recusou a enfrentar quaisquer aventuras sérias com a armada britânica. A expedição aliada à Noruega meridional, constante de 12.000 homens, formava menos que uma simples divisão; e embora os alemães tivessem mandado oito ou dez divisões, esta continuava sendo uma pequena porção das duzentas divisões que, ao que se calculava, o Reich tinha em armas. Importante como era a posse da Noruega, sob numerosos aspectos, nenhum dos lados estava desejoso, contudo, de jogar alto a ponto de enfraquecer seriamente a sua posição no caso de um movimento do inimigo nos Bálcãs, no Mediterrâneo ou nos Países Baixos.

Havia contudo definitivas conseqüências econômicas e estratégicas que representavam um ganho real para a Alemanha e perda nítida para os aliados. O espólio imediato obtido pelos nazistas era em si substancial. Metade das reservas de ouro dos bancos centrais de Oslo e Copenhague, somando cerca de 75.000.000 de dólares, juntamente com quantidade ignorada de valores estrangeiros, caiu em mãos alemães. No porto livre de Copenhague, os armazéns foram completamente atulhados de artigos importados, desde os gêneros alimentícios até peças de motor. Somente na Dinamarca foram encontradas de 300.000 a 500.000 toneladas de óleo e petróleo. Estes eram manás que a economia estritamente racionada do Reich tinha todas as razões para bem receber.

Os recursos naturais da Noruega e Dinamarca eram de maior importância ainda. A Dinamarca era rico país agricultor e produtor de laticínios, no qual um terço da população vivia exclusivamente do cultivo da terra. Uma nação como a Alemanha, que ficou sem manteiga afim de fabricar canhões, podia bem receber a aquisição do maior exportador de manteiga do mundo, e também um dos maiores produtores de toucinho. Tanto a Dinamarca como a Noruega eram grandes exportadoras de peixe, e os produtos florestais e minerais da Noruega eram importantes para propósitos bélicos. Um aspecto complementar dessas aquisições era o de que elas privavam os aliados, particularmente a Grã-Bretanha, de suprimentos que até então recebiam. A Grã-Bretanha absorvia metade das exportações dinamarquesas e mais que uma quarta parte das da Noruega. Ela estava agora sem o seu maior fornecedor de manteiga, toucinho e ovos. Com a conquista da Noruega, ela perdia o grosso de seu abastecimento normal de madeira e mais de noventa por cento de sua polpa de madeira - materiais importantes na manufatura de aviões e na provisão de celulose para explosivos, como também ao fabrico de papel para jornais. Da Noruega também vinham ligas de ferro e produtos de acetileno, importantes para o preparo de aço e construções navais. Tais produtos, agora à disposição da Alemanha, teriam de ser substituídos pelos aliados por abastecimentos de fontes menos adequadas.

Havia, é verdade, outras considerações que até certo ponto perturbavam esse equilíbrio. Para começar, a Dinamarca tinha uma balança comercial favorável com a Inglaterra, enquanto da Alemanha comprava mais do que lhe vendia. Isto significava que a Dinamarca obtinha fundos da Grã-Bretanha e os empregava na Alemanha, obtendo assim uma certa soma de câmbio estrangeiro que não mais estaria à disposição do Reich. Também, embora a nova conquista pudesse facilitar a situação alimentar no Reich, essa vantagem poderia, a certos respeitos, ser temporária. Nenhum país bastava a si mesmo em matéria de gêneros alimentícios. A Noruega em particular, com apenas três por cento de suas terras aráveis, dependia de importações de cereais; e a Dinamarca era uma produtora especializada para o mercado mundial e dependia a muitos aspectos de abastecimentos de fora. Isto era particularmente verdadeiro no caso dos adubos e forragens, ambos os quais provinham de além-mar; e estes, particularmente as forragens concentradas como a torta oleosa, eram justamente os de que a Alemanha carecia. Isto queria dizer que, embora a Dinamarca fosse uma abastecedora por curto prazo de gêneros alimentícios, surgia a possibilidade de que a carência de forragens conduziria no inverno a uma considerável matança de gado; e, entrementes, o problema de abastecer a Noruega de gêneros alimentícios devia ser resolvido pela Alemanha. Mas essas eram dificuldades que podiam ser facilmente exageradas. A Alemanha tinha mostrado, no caso de outras conquistas suas, que podia lidar com essa espécie de situação, reduzindo o padrão de vida dos povos que mantivesse submissos; e a imediata instituição de um racionamento rígido na Dinamarca mostrou a determinação de conservar essa nova conquista por métodos semelhantes.

Um fator importante, contudo, escapava-lhe em grande parte ao controle. Esse era a navegação dinamarquesa. Era um fator particularmente importante no caso da Noruega, cuja navegação de quatro e meio milhões de toneladas era a quarta frota mercante do mundo em tamanho, ligeiramente superior à frota alemã. Considerável parte dessa frota, incluindo cerca de cinqüenta por cento dos 272 navios-tanques noruegueses, já estava fretada pelo governo britânico. Somente pequena porção dessa frota estava em portos noruegueses quando se verificou a invasão, e aos navios em alto mar foi ordenado pelo rádio arribassem a portos neutros ou aliados. Por meio de disposições subseqüentes, um comitê norueguês com sede em Londres tomou sob controle unificado essa frota agindo em colaboração com o controle naval anglo-francês estabelecido logo no começo da guerra. A navegação dinamarquesa, entretanto, era um problema mais complicado. O governo norueguês podia agir com os aliados; mas o governo dinamarquês estava sob proteção alemã e não podia adotar uma atitude hostil ao Reich. Isto significava que a navegação dinamarquesa, do ponto de vista aliado, era tecnicamente de um caráter inimigo. Ao mesmo tempo, os aliados não tinham desejo algum de tratar a Dinamarca como uma potência hostil, e tinham todas as razões para adquirir e não destruir os navios dinamarqueses. Ao invés de os apreender ou afundar, os aliados se ofereceram para arrendá-los, sob a condição de serem transferidos para a bandeira britânica ou francesa e de que a renda correspondente não passasse para a Alemanha. Essas condições, entretanto, mostraram-se de difícil aceitação, e durante abril e maio a maior parte dos 700 navios pertencentes à Dinamarca, dois terços dos quais em portos neutros ou aliados, permaneceram imóveis. Um comitê dinamarquês de navegação, organizado pelo ministro da Dinamarca nos Estados Unidos, negociava com os aliados; e a 23 de maio foi firmado um acordo permitindo aos navios deixarem os portos neutros com qualquer destino, a exceção da Alemanha e países sob seu controle. Mas isto acabou por ser apenas uma concessão temporária, e o destino final dos navios que continuavam a ostentar o pavilhão dinamarquês parecia ser provavelmente sua apreensão pelos aliados.

Sob o aspecto estratégico, a conquista da Noruega meridional, em particular, significava uma vantagem bem definida para a Alemanha. Os portos noruegueses se prestavam admiravelmente à atividade submarina. As bases aéreas norueguesas diminuíam para a metade a antiga distância pelo ar à Inglaterra setentrional, especialmente à base naval de Scapa Flow. A Alemanha estava, pelo menos potencialmente, numa posição muito mais favorável para martelar as principais rotas marítimas britânicas, incluindo as rotas norte e oeste das Ilhas Britânicas, e para obrigar as forças navais de bloqueio que antes patrulhavam a área entre a Escócia e a Noruega a estender suas atividades por um raio muito maior. A importância da nova situação foi demonstrada a 17 de abril com o informe de que a Grã-Bretanha estava colocando minas ao longo de sua costa ocidental, principalmente para proteger o estuário do Clyde. A ameaça ainda era mais potencial do que imediata, pois que o êxito dos submarinos contra a navegação mercante continuava em declínio, e parecia que as bases aéreas norueguesas ainda não estavam sendo utilizadas para reides de longa distância. Mas a Alemanha, apesar de tudo, estendeu grandemente o alcance de seu poder ofensivo contra o flanco oriental britânico.

Do ponto de vista negativo, havia também vantagens reais para a Alemanha. Mesmo que não tivesse usado essas novas posições como bases para ação agressiva, a ocupação removera o receio de que pudessem ser tomadas e utilizadas contra ela pelo inimigo. O controle da Dinamarca e da Noruega era uma proteção para a frente setentrional da Alemanha, cuja importância ficou grandemente aumentada. porque significava também o controle sobre o Báltico. E tinha a outra e positiva vantagem de quase automaticamente significar o controle da Suécia.

A invasão da Noruega alarmara naturalmente a Suécia, receosa pela própria segurança. E, por mais irônico que pareça, foi o veto russo ao proposto pacto escandinavo de defesa que livrou a Suécia da obrigação de entrar na guerra em favor da Noruega. Mas havia sempre a perspectiva de que, se as forças alemães fossem mal sucedidas, os nazistas exigissem passagem através da Suécia para homens e abastecimentos. A Suécia rejeitara de antemão qualquer idéia dessa natureza e alegara firmemente a intenção de defender sua neutralidade contra qualquer violação. Apoiou esta alegação com ataques a aviões que lhe sobrevoaram o território e com protestos enérgicos junto ao Reich contra tais atos. Uma troca de cartas entre o rei Gustavo e Hitler parece ter levado a Alemanha a dar garantias; mas o fato decisivo foi o êxito da consolidação do controle alemão na Noruega. Isto significava, com efeito, que a Suécia caíra irremediavelmente na órbita alemã, tanto política, como economicamente; e o começo de negociações comerciais com a Alemanha em fins de abril indicava o fato da Suécia ter percebido que, com a Alemanha controlando a entrada do Báltico, o acesso sueco ao mundo exterior era dependente da boa vontade alemã.

Significava também que os recursos da Suécia estavam mais completamente do que nunca à disposição da Alemanha, e especialmente que a Alemanha tinha agora garantido um fornecimento contínuo de minério de ferro sueco. Isto era de importância capital, pois que das importações alemães de minério de ferro no total de 24.000.000 de toneladas em 1938 quase 11.000.000 de toneladas provinham da Suécia, e a sua alta qualidade tornava-a indispensável à indústria alemã de armamentos. Normalmente, o grosso dessa importação seguia o caminho de Narvik, e esse porto no momento não mais era utilizável. Mas as importações alemães por essa rota vinham mostrando forte declínio desde o início do ano; e com a abertura da rota do Báltico acreditava-se que Lulea e outros portos suecos, embora mais limitados em capacidade que o de Narvik, podiam encarregar-se do grosso das exportações necessárias. Por outro lado, os aliados estavam agora grandemente privados do acesso ao minério sueco. A Grã-Bretanha, em fevereiro, recebera, em realidade, mais minério de Narvik que o recebido pela Alemanha. Os dois milhões de toneladas de minério que ela normalmente importava da Noruega e Suécia representavam apenas uma terça parte de suas importações, mas sua alta qualidade tornavam-no de grande importância, e a indústria britânica de aço estava provavelmente destinada a enfrentar certa dificuldade antes de poder conseguir uma fonte substituta de abastecimentos.

A queda de Chamberlain

O colapso da campanha norueguesa levou ao auge uma crise política que havia muito se vinha desenvolvendo. Nas primeiras etapas da invasão nazista, o público tinha sido encorajado a acreditar que Hitler tinha dado um passo descuidado, cujas conseqüências cedo sentiria. Com o passar do tempo sem que essas conseqüências surgissem, crescente obstinação se tornou aparente; e com a revelação da completa falta de habilidade dos aliados na realização de um contra-golpe decisivo, o sentimento de decepção achou vasas numa explosão de ira contra o governo, e especialmente contra o primeiro ministro.

Mas o responsável não era apenas o fracasso norueguês. Como Attlee disse durante debates subseqüentes: "Reina grande ansiedade entre o povo deste país, que não está convencido de que a guerra está sendo conduzida com suficiente energia, capacidade, força e resolução. e isto não somente na Noruega. A campanha norueguesa é o auge de outros descontentamentos". Isto ficou delimitado pela diferença na atitude geral em relação a Chamberlain e Churchill. Este era responsável pelo Almirantado, cuja política foi alvo de considerável crítica sob a acusação de falta de audácia crítica orientada pelo almirante Keyes, que se mostrava ressentido com a rejeição de sua oferta de dirigir um ataque a Trondheim. Churchill falara de modo otimista a respeito da ação de Hitler, classificando-a de "erro estratégico e político tão grande como o cometido por Napoleão ao invadir a Espanha." Prometera que os exércitos aliados iriam "limpar o solo dos Vikings da imunda mácula da tirania nazista". Mas Churchill, fossem quais fossem os seus enganos, teve pequena parte na responsabilidade pelas grandes deficiências que tinham condenado a campanha ao fracasso. Logo que Hitler começara a rearmar-se, ele tinha estado a martelar o governo, num esforço para persuadi-lo da necessidade de se preparar para a luta vindoura. E agora apontava para antecedentes de que não teve culpa quando dizia: "A razão da séria desvantagem decorrente da falta de iniciativa nossa é daquelas que não podem ser rapidamente removidas. Foi falha nossa não termos nos últimos cinco anos mantido ou reconquistado a paridade com a Alemanha no ar. Esta é uma velha e comprida história."

Por outro lado, Chamberlain não podia deixar de compartilhar uma parte, ao menos, de tal situação. E à luz do fracasso norueguês, toda a política do governo chamberlainiano começou a assumir uma perspectiva diferente aos próprios olhos dos que o apoiavam. A lembrança de tentativas inúteis para apaziguar os ditadores, a exclusão inexorável de seu conselho de homens que advogavam uma orientação mais briosa, a carência de vigor mesmo depois de iniciada a guerra e o otimismo frívolo de alegações como que "Hitler tomou o bonde errado" - tudo isso agora refluiu sobre ele. Qualquer possibilidade que tivesse de recuperar a posição era desfeita pela sua arrogante impenitência. A desculpa implícita em seu discurso de 7 de maio visava menos o fracasso da expedição do que o fato mesmo de tal expedição ter sido enviada. Recusava-se a estudar quaisquer mudanças sérias de pessoal ou a criação de algum gabinete de guerra realmente eficiente. Reiterou a convicção de que "a balança das vantagens até o presente pende para o lado das forças aliadas". Era claro que sob sua chefia não se poderia esperar um novo impulso de vigor ou imaginação.

O resultado foi uma revolta dentro do próprio Partido Conservador contra a continuação dessa inexorável falta de habilidade. Este foi o fato vital em torno da votação de 8 de maio na Câmara dos Comuns. O governo estava à superfície, sustentado por uma votação de 281 contra 200. Mas o Partido Conservador na Câmara somava 365 membros, e destes apenas 252 votaram pelo governo. Entre os 65 conservadores que não tinham votado pode ter havido algumas abstenções normais, mas o grosso se abstivera deliberadamente de votar como expressão de sua desaprovação. Os 33 conservadores que votaram contra o governo incluíam figuras proeminentes tais como Duff Cooper, L.S. Amery, Leslie Hore-Belisha e Lord Winterton todos eles antigos ministros conservadores. Todos os membros conservadores dos serviços de guerra presentes à sessão votaram contra o ministério.

Apesar da maioria de Chamberlain, portanto, a votação era uma clara condenação de sua chefia. Ele tentou ainda endireitar a situação, alargando as bases do ministério. Mas os líderes trabalhistas se recusaram a unir-se a uma administração de que Chamberlain fosse o chefe, e essa recusa resolveu o caso. A 10 de maio, Chamberlain renunciou, e Churchill teve coroada a sua movimentada carreira com a obtenção, afinal, da pasta de primeiro ministro.

Mas a esta altura os aliados se defrontaram com uma nova crise, muito mais grave, pois Hitler lançou todo o poderio de seus exércitos contra os Países Baixos.

A Invasão dos Países Baixos

A confiante inocência da Dinamarca e da Noruega, que se deixaram apanhar completamente de surpresa, estava longe de ser partilhada pelos pequenos países à fronteira ocidental da Alemanha. Logo desde o renascimento da Alemanha como potência militar, eles vinham tendo plena consciência dos perigos com que se iriam defrontar no caso de uma nova guerra no oeste. A topografia dos Países Baixos, que oferecia menos obstáculos naturais que o terreno mais para o leste, tomava-os o caminho mais adequado para um exército de invasão que partisse quer da França quer da Alemanha. A tentação era aumentada pela sua relativa carência de obras artificiais de defesa, quando contrastadas com as pesadas fortificações de ambos os lados da fronteira franco-alemã. Uma investida através da Holanda e da Bélgica era algo que os chefes militares tanto da Alemanha como dos aliados tinham que ter em vista como uma possibilidade sempre presente.

Os Países Baixos, por sua vez, estavam completamente alertas quanto a essa perspectiva. Nos primeiros dias da guerra, ela chegou muito perto da realização durante a crise de novembro; e novamente em janeiro um ataque alemão pareceu iminente. O irromper das hostilidades na Escandinávia mostrou o quanto as pequenas nações neutras estavam expostas à cruel agressão nazista e prenunciou ações alemães mais vastas no oeste. A Bélgica, a 10 de abril, cancelou as licenças no exército. A Holanda também começou a tomar precauções, que a levaram a reforçar suas tropas nas áreas fronteiriças de Limburg e Bradant a 12 de abril e a inundar a região em torno de Utrecht. A lei marcial já estava em vigor em certos distritos; e a 19 de abril o estado de sítio foi estendido a todo o país. Com a lição das atividades quinta-colunistas da Noruega diante delas, tanto a Holanda como a Bélgica começaram a deter pessoas suspeitas em posições-chave - se bem que no caso da Holanda pelo menos tais medidas se mostrassem por demais limitadas no seu intuito.

A 7 de maio estava claro que tais precauções tinham e muito bem - a uma razão de ser. Nesta data, chegou aos Países Baixos a informação de que os alemães estavam concentrando tropas rapidamente em pontos-chave ao longo da fronteira. O govern