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Quando
se consideraram as exigências que a guerra haveria de impor a esses
diferentes recursos, tomou-se logo evidente uma diferença entre os dois
adversários. Se bem que a Alemanha não tivesse possessões imperiais,
ela também estava livre de obrigações imperiais. Não tinha necessidade
de dispersar forças para proteção de colônias ou para defesa de rotas
comerciais. Como em 1914, podia concentrar seus esforços; e uma vez
mais, sua posição geográfica lhe permitia operar em linhas interiores.
Um estudo da situação estratégica, na verdade, dificilmente era possível
sem compará-la com a de 1914. O
primeiro e mais evidente dos fatos era o de que em 1939, em contraste
com a situação de 1914, a Alemanha estava sozinha. A aliança com a Itália,
entusiasticamente exaltada pelos dois sócios como um "pacto de aço",
tinha menos de quatro meses de idade quando a guerra estourou. Imediatamente,
a despeito dos protestos de sua continuada lealdade à aliança, a Itália
assumiu uma atitude de determinada neutralidade - atitude simbolizada
pela reforma ministerial de 31 de outubro que eliminou do governo os
principais partidários da Alemanha. O discurso do conde Ciano na Câmara
das Corporações, a 16 de dezembro, revelou que a Itália tinha estipulado
uma paz de três anos a fim de poder completar seus preparativos militares,
que a Alemanha entrou em guerra com a Polônia a despeito dos esforços
italianos para evitar as hostilidades e que o acordo germano-soviético
era tudo menos bem-vindo. O tom oficial dos pronunciamentos italianos
era ainda favorável à Alemanha, mas isto parecia motivado menos pela
afeição ao Reich do que por uma insistente irritação em relação à Grã-Bretanha
e França. Parecia cada vez mais provável que a Itália ainda uma vez
aceitaria as condições mais atraentes que qualquer dos lados lhe oferecesse. Esta
atitude de parte da Itália, e ainda mais o pacto germano-soviético,
tiveram importante influência sobre o outro membro do grupo anti-comintern.
A vitória do general Franco na Espanha tinha sido proclamada por ele
mesmo e pelos que o apoiavam como um triunfo sobre o Bolchevismo. Qualquer
projeto que a Alemanha alimentasse em relação ao auxílio espanhol como
sinal de gratidão pela sua assistência a Franco viu-se gravemente diminuído
em conseqüência do tratado com a Rússia. Em qualquer caso seria discutível
que a Espanha se movimentasse sem que primeiro a Itália assim procedesse.
Assim, a neutralidade espanhola estava assegurada para o momento. Essa
situação momentânea livrou os aliados da ameaça vital que de outra forma
teria recaído sobre a sua posição no Mediterrâneo - resultado atribuível
pelo menos tanto à boa sorte como à boa política. Na
outra ponta do Mediterrâneo, a situação era definitivamente mais favorável
aos aliados do que tinha sido em 1914. A Turquia então se colocara ao
lado da Alemanha. Agora ela não somente se mantinha neutra, mas também
decidida a resistir a qualquer agressão alemã na região balcânica. Um
tratado definitivo de assistência mútua no Mediterrâneo oriental, incluindo
garantias específicas à Grécia e à Romênia, foi firmado entre a Turquia
e os Aliados, em 19 de outubro. Seguiu-se-lhe um acordo comercial entre
a Turquia e a Grã-Bretanha completado por conversações militares entre
os três Estados. Foi assim assegurada aos Aliados uma coordenação dos
esforços defensivos nos Bálcãs e no Oriente Próximo. O
outro aliado da Alemanha em 1914 foi a Áustria-Hungria. O império dos
Habsburgos tinha sido liquidado em Versalhes; mas o seu resultado final
fôra a absorção pela Alemanha nazista desses antigos territórios habsburguenses,
a Áustria e a Tchecoslováquia. Podia considerar-se que esta absorção
compensava em parte o desaparecimento do antigo aliado alemão, especialmente
do ponto de vista estratégico. A dominação da Boêmia, aquela "fortaleza
construída por Deus no coração da Europa", ficou assim uma vez mais
assegurada. Havia vantagens econômicas também na aquisição tanto do
parque industrial como das recursos naturais, se bem que essas vantagens
não estivessem de maneira alguma isoladas uma da outra. Do ponto de
vista puramente militar, por outro lado, o aumento do potencial humano
estava longe do equivalente do antigo exército austríaco. Pelo contrário,
a presença de uma população hostil e cheia de ressentimentos na Áustria
e na Tchecoslováquia poderia tornar-se um problema sério que dificultaria
os esforços de guerra do Reich. Mas,
se era verdade que a Alemanha se encontrava sozinha, não era menos verdadeiro
que enfrentava um número menor de inimigos. No oeste, naturalmente,
o efetivo comparado desses inimigos tinha toda a aparência de ser maior
que em 1914. A preponderância naval britânica era ainda mais esmagadora.
O exército francês era considerado quase unanimemente - e só os alemães
discordavam disso - como o melhor do mundo. As defesas terrestres da
França, um monumento das convicções e da resolução de André Maginot,
eram consideradas fortes a ponto de tornar um suicídio qualquer assalto
direto; e embora isto tornasse mais tentador um ataque de flanco através
da Bélgica ou da Suíça, considerava-se que o alto comando francês estaria
preparado para fazer frente a tal manobra. A contrabalançar tudo isto,
entretanto, havia o fato de que se a Alemanha não podia invadir a França,
esta enfrentava igual dificuldade para invadir a Alemanha. E no leste,
onde a Rússia czarista tinha se lançado à invasão em 1914, havia agora
a União Soviética no pleno vigor de recente amizade para com o Terceiro
Reich. Isto
eliminou o perigo, considerado pelo Estado-Maior, de uma guerra em duas
frentes. Não eliminara de todo a segunda frente. Mas pelo menos a Polônia
parecia oferecer um problema menos formidável; e a Alemanha, com o lançar
de todo o seu peso contra o inimigo mais fraco, poderia esperar eliminá-la
do quadro antes que os antagonistas mais fortes pudessem trazer todo
o seu poderio para o oeste. A
campanha da Polônia A
Polônia, como nação, havia muito se acostumara a viver perigosamente.
Sua situação no Báltico tornou-lhe o território uma estrada natural
de exércitos em marcha para leste ou oeste; sua carência em defesas
naturais fê-la presa de vizinhos poderosos e vorazes. Entre 1772 e 1796,
a Áustria, a Rússia e a Prússia tinham decidido extinguir o Estado polonês.
Sua opressão continuou no decorrer de todo o século dezenove. Mas, embora
os poloneses tenham sido vencidos e divididos, jamais foram subjugados.
O espírito do nacionalismo polonês sobreviveu a todos os esforços de
dominação, e o sonho do Estado polonês revivido permaneceu sendo a finalidade
de todos os patriotas poloneses. Com o irromper da guerra de 1914, sua
oportunidade chegou. Um chefe militar emergiu na pessoa de Pilsudski;
um Comitê Nacional Polonês foi formado na França e obteve o apoio dos
aliados para a independência polonesa; e em 1919 um Estado livre polonês
mais uma vez foi tornado existente. Desde
então, até a sua morte, em 1935, Pilsudski foi a figura dominante na
Polônia. Depois que morreu, az tarefa da chefia ficou a cargo de dois
homens - o coronel Beck, ministro dos negócios exteriores, e o marechal
Smigly-Rydz, comandante-chefe do exército. Sua tarefa era manter a independência
da nação num momento em que ela se tornava gradualmente mais ameaçada.
Um ataque pela Alemanha ou pela Rússia; uma guerra entre a Alemanha
e a Rússia; um acordo entre a Alemanha e a Rússia, a expensas da Polônia
- tudo isto era possível, e tudo isto ameaçava a existência da Polônia.
Os líderes poloneses procuraram preparar-se para tais eventualidades
com a organização de um exército eficiente, a manutenção de uma atitude
correta, e onde possível amigável, em relação tanto à Rússia como à
Alemanha e a procura de apoio alemão e francês. Embora desejassem a
paz, não pretendiam comprá-la à custa de sacrifícios que pudessem ameaçar
a independência polonesa. Quando Hitler apresentou exigências que envolviam
tal ameaça, os poloneses estavam plenamente resolvidos a lutar antes
que render-se. A
Polônia sobre a qual se despencou a avalancha alemã era um país de trinta
e cinco milhões de habitantes, dois terços dos quais viviam da agricultura.
Era tudo, menos um país opulento. O padrão de vida do campônio polonês
era bem mais baixo que o do alemão. Era um país de poucos recursos industriais,
e com pouco capital disponível para financiar o desenvolvimento da indústria.
A aquisição da Alta Silésia significou-lhe a posse de uma área industrial
com importantes depósitos carboníferos. Havia alguns depósitos de óleo
ao sul, nas proximidades dos Cárpatos. Todos os esforços foram feitos
pelo governo para a organização de uma indústria pesada na região sul-central,
uma indústria cuja natureza e localização eram influenciadas por considerações
de ordem militar. Mas, embora esses esforços tivessem determinado certos
progressos, a organização econômica da Polônia era ainda tudo menos
adequada a propósitos bélicos. Sob
o ponto de vista da defesa, a geografia era de pouca vantagem para os
poloneses. Os Cárpatos formavam-lhe uma fronteira natural ao sul; mas
a absorção pela Alemanha da Boêmia e Morávia e a ocupação da Eslováquia,
que ocorreu a 18 de agosto, fez desses limites naturais um prolongamento
de flanco de uma fronteira já por si muito longa para ser eficientemente
defendida. No oeste, havia algumas fortificações a cobrir a Silésia,
e certo número de importantes cidades tinham sido também fortificadas.
Mas nada havia que lembrasse a linha Maginot para deter o invasor. O
choque principal tinha de ser aparado diretamente pelo exército polonês. O
exército polonês era bem treinado e bom em qualidade. Com trinta e duas
divisões de primeira linha e trinta divisões de reserva, ele somava
perto de um milhão de homens; e mobilizações subseqüentes aumentaram
esse total para milhão e meio. Mas ele era ainda inferior às forças
alemães, não somente em número, como em equipamento. Havia deficiência
de artilharia pesada, canhões anti-tanques e canhões anti-aéreos. Embora
teoricamente possuísse uma divisão blindada, esta tinha sido relegada,
ou obrigada a ser relegada, em favor de uma força móvel de cavalaria.
E, sobretudo, a sua força aérea, embora composta de 1.200 aviões, iria
mostrar-se de uma fatal fraqueza no conjunto da organização defensiva
da Polônia. De
acordo com a estratégia alemã, deveria ser desfechado um golpe esmagador
que obtivesse a rápida e completa eliminação da Polônia como beligerante.
Contava ela obter isto durante o período que a França e a Inglaterra
necessitariam fazer com que suas forças tomassem posição, e antes que
uma ofensiva maior pudesse ser desfechada por essas potências no ocidente.
Para tal propósito, das 90 divisões de infantaria mais 8 divisões blindadas,
três quartas partes, isto é, mais de um milhão de homens, eram concentradas
contra a Polônia, ficando a cargo da defesa no ocidente 20 divisões
de reserva de tropas veteranas. Os
planos alemães foram baseados num ataque envolvente por dois exércitos
principais em direção a Varsóvia. Cada uma dessas forças principais
ia, por sua vez, realizar uma série de ataques que resultariam no amplo
movimento final. Ao norte, o Corredor deveria ser cortado por ataques
procedentes da Pomerânia e da Prússia Oriental, enquanto uma segunda
força na Prússia Oriental devia provocar uma diversão avançando diretamente
rumo a Varsóvia. Ao sul, duas forças deviam envolver a Silésia e depois
dirigir-se para nordeste a fim de fazer junção com uma terceira força
atacando na direção de Lodz. Exércitos do norte e sul iriam então convergir
num movimento final para esfacelar o que restasse da defesa polonesa. Para
fazer frente a esse ataque, os poloneses planejaram uma resistência
retardadora em certo número de pontos próximos à fronteira. Atrás dessas
forças avançadas, três grupamentos principais tomariam posição para
proteger Varsóvia e o triângulo industrial mais ao sul. Numa série de
ações retardadoras, essas forças recuariam afinal até a linha fluvial
interior do Narew-Bug-Vístula-San, onde seria travada a batalha decisiva. Três
fatores foram primariamente responsáveis pela desorganização desse plano
defensivo. Primeiro, a mobilização polonesa ainda estava incompleta
quando o golpe foi desfechado. A mobilização alemã já começara a 9 de
agosto, e estava bem encaminhada pelo dia 20 do mesmo mês. Mas, desejosos
de evitar provocação - desejo encorajado pela Grã-Bretanha e França
- os poloneses retardaram a mobilização geral até 31 de agosto, o dia
em que precedeu o ataque germânico. Embora a semana precedente tivessem
tomado as medidas preliminares, isto significava que os poloneses careciam
de tempo para desenvolver por completo os seus planos. Segundo, a eficácia
do ataque aéreo alemão foi devastadora e total. O bombardeio das estradas
de ferro da Polônia desorganizou completamente os transportes e comunicações
e tornou difícil a coordenação. Os ataques às bases aéreas polonesas,
auxiliados por um serviço de espionagem de grande eficiência, destruíram
a quase totalidade da força aérea polonesa mesmo antes dela deixar o
solo. Dentro de dois dias, os alemães tinham o domínio completo do ar,
e o exército polonês foi deixado às cegas. Terceiro, a velocidade e
a audácia do avanço mecanizado alemão ultrapassaram todas as previsões.
Os poloneses contavam com más estradas e com a lama polonesa para neutralizarem
os tanques e transportes. Mas, os rios estavam pouco profundos e as
chuvas tinham cessado, e assim esses obstáculos naturais deixaram de
desempenhar todo o papel que lhes fôra atribuído. O avanço arrojado
das colunas mecanizadas alemães levava-as, de quando em quando, a perder
por completo o contacto com o grosso da tropa, e em muitos lugares mostrou-se
extremamente dispendioso, mas a sua contribuição para a desorganização
das forças polonesas valeu plenamente esse preço. Os
dois primeiros dias da campanha demonstraram a natureza arrasadora do
ataque alemão. Lançando-se sobre as forças polonesas ainda não preparadas
e antes que elas se pudessem estabelecer em posições defensivas adequadas,
os alemães levaram por diante a primeira linha dos defensores em direção
à Varsóvia e à linha do Vístula. Ao norte, os movimentos combinados
partidos de Posen e da Prússia Oriental ameaçavam flanquear as forças
polonesas e obrigaram-nas a retirar para o sul. Isto permitiu que as
forças alemães fizessem junção a 5 de setembro e cortassem o Corredor,
embora a resistência ainda continuasse em torno de Gdynia e da península
de Hela. Ao sul, os alemães avançaram rapidamente sobre o distrito industrial
da Silésia, e com a captura de Cracóvia a 6 de setembro a região inteira
estava em suas mãos. Em ambas as frentes, forças alemães mecanizadas
progrediram com o fim de romper as comunicações e cortar a retirada
polonesa. Esses dois movimentos de pinça, ao norte e ao sul, abriram
o caminho ao avanço principal pelo centro, o qual a 7 de setembro chegou
até a importante cidade de Lodz. A
primeira fase da campanha foi assim completada em uma semana. A resistência
inicial dos poloneses tinha sido esmagada e áreas contendo recursos
importantes transpostas pelos invasores. Os alemães não tinham sido
bem sucedidos entretanto no plano de destruir ou mesmo separar os principais
exércitos poloneses. A sua resistência estava mostrando sinais de revigoramento,
e os poloneses recuaram para linhas defensivas mais curtas a fim de
fazer frente ao ataque alemão concentrado, que agora convergia sobre
eles. A segunda fase mostrou o aumento dos ataques de flanco, os quais
fizeram com que os poloneses recuassem incessantemente, precipitando
a convergência das unidades alemães sobre a região de Varsóvia. Uma
penetração de elementos mecanizados alcançou os subúrbios da capital
a 8 de setembro, embora não tenha sido senão no dia 15 que o exército
alemão chegou diante da cidade. Entrementes, incursões partidas do norte
desenvolveram-se para leste até Brest Litovsk, e, ao sul um forte destacamento
mecanizado foi lançado em direção a Lemberg com o objetivo de cortar
a linha de comunicação com a Romênia. No dia 16, a região de Varsóvia
fôra praticamente cercada e o avanço meridional chegara bastante além
do Vístula. Mas, conquanto as comunicações polonesas tenham sido rompidas
e o comando militar estivesse mostrando sinais de desorganização, a
crescente severidade da resistência deu esperança de que uma defesa
eficaz ainda pudesse ser organizada na Polônia oriental. Esta
era a situação quando, a 17 de setembro, a União Soviética efetuou uma
invasão do leste. O governo russo anunciou que, segundo o seu ponto
de vista, o Estado Polonês tinha cessado de existir, e que os tratados
com ele concluídos, tais como o pacto de não-agressão de 1932, tinham
perdido o valor. Em conseqüência, a União Soviética achou necessário,
intervir para proteger seus irmãos de sangue na Polônia. Ao mesmo tempo,
Berlim declarou que a intervenção havia tido lugar com o pleno conhecimento
e aprovação do governo alemão. Para
o destino da Polônia, este foi o golpe decisivo. Embora os russos tenham
encontrado pequena resistência, essa nova invasão completou a desorganização
das defesas polonesas e impediu a possibilidade de criar uma verdadeira
frente a leste. É verdade que na área de Varsóvia continuaram a ser
travados duros combates por cerca de três semanas. Conquanto os alemães
tenham exigido a sua rendição no dia 17, a própria Varsóvia manteve
heróica resistência sob constante bombardeio e privações crescentes
até o dia 27. A fortaleza de Modlin resistiu até o dia 29; na península
de Hela a resistência continuou até o dia 2 de outubro; e uma força
de 16.000 poloneses ao norte de Lublin manteve a luta até o dia 5 de
outubro. Estas porém não passaram de lutas isoladas, e os esforços da
Polônia como Estado ruíram com a invasão russa. Mesmo
antes de terminada a luta, os despojos tinham sido repartidos pelos
conquistadores. Após uma temporária "divisão militar" que trouxe a Rússia
até o Vístula, o acordo de 29 de setembro fixou uma fronteira mais para
o leste e seguindo linhas gerais etnográficas. Assim, a Rússia se contentou
com menos de metade da Polônia, deixando para a Alemanha a porção mais
rica, mas adquirindo uma população de cerca de 12 milhões, racial e
economicamente aparentados aos camponeses russos. Da parte restante
a Alemanha anexou as seções ocidentais ao Reich e criou ao centro uma
província teoricamente autônoma de 112.000 km² e de uma população acima
de 13.000.000, como uma espécie de território em que poloneses e judeus
ficassem segregados dos outros habitantes do Reich. Esperava-se
que quando Hitler acabasse com a Polônia faria um apelo de paz aos aliados,
sob o fundamento de que o objetivo original da guerra estaria desaparecido.
Tal apelo foi sugerido no discurso de Hitler em Dantzig: a 19 de setembro;
e a 6 de outubro, dirigindo-se ao Reichstag, ele sugeriu um ajuste fundado
nas conquistas alemães já existentes e das necessidades ainda insatisfeitas.
Tão pouco contribuiu esta iniciativa para uma base aceitável que a Itália,
dois dias antes, virtualmente refutou qualquer intenção de se associar
a um esforço alemão de paz. "As propostas contidas no discurso do chanceler
alemão" - disse Mr. Chamberlain a 12 de outubro - "são vagas e incertas
e não contêm sugestão alguma para reparar os erros cometidos em relação
à Tchecoslováquia e à Polônia... Seria ainda necessário perguntar-se
por que meios práticos o governo alemão pretende convencer o mundo de
que a agressão cessará e os tratados serão cumpridos." Sob tais condições,
a paz estava ainda longe de ser alcançada; e com o fim da campanha polonesa,
os esforços militares seriam concentrados na frente ocidental. A
frente ocidental Ao
começar a guerra o problema imediato dos aliados no ocidente foi dar
auxílio eficaz à Polônia. Uma assistência direta era visivelmente impossível,
a menos que eles estivessem preparados para arriscar a perigosa empresa
de forçar o Báltico. Uma assistência indireta somente se poderia tornar
efetiva com o levar uma pressão ao ocidente capaz de forçar os alemães
a afrouxar a tenaz na Polônia e consagrar suas principais energias à
defesa da Renânia. Mas esta também era uma empresa cujo preço poderia
ser nada menos que ruinoso se desenvolvesse um ataque frontal às defesas
permanentes da muralha ocidental ou da Linha Siegfried. Estas
defesas eram a resposta alemã à Linha Maginot francesa. Esta última
tinha sido construída no decorrer de um período de anos e a um custo
de cerca de 500.000.000 de dólares. Consistia numa série de fortificações
subterrâneas, intercaladas de casamatas e fortins de defesa circular,
cobrindo a fronteira desde Luxemburgo até a Suíça, e estendendo-se em
certos pontos numa profundidade de 40 km. Nessas fortificações interligadas,
uma guarnição poderia manter-se durante um período prolongado sem auxílio
de fora; e sob sua cobertura os exércitos franceses poderiam concentrar-se
e manobrar sem recear um ataque de surpresa. As linhas alemães eram
uma série de posições independentes, construídas sob o princípio de
defesa em profundidade e dispostas de maneira a submeter a um mortal
fogo cruzado quaisquer forças que penetrassem naquela zona. Seu término
foi apressado desde 1937 com nada menos de meio milhão de homens, que
nela trabalharam durante a crise de 1938. Embora diferentes na construção,
ambas tinham isto em comum: uma progressiva resistência de defesa contra
forças atacantes com a finalidade de desgastá-las a um ponto tal que
pudessem ser destruídas por contra-ataques antes de terem transposto
a última das fortificações. Foi
contra esta posição que os exércitos franceses começaram a movimentar-se
ao rebentar a guerra. A 5 de setembro, um comunicado francês anunciou:
"Nossas tropas tomaram contacto com o inimigo em todos os pontos de
nossa fronteira entre o Rheno e o Mosela." Durante os dez dias seguintes,
eles ocuparam uma área de cerca de 100 milhas quadradas dentro da fronteira
alemã. O avanço caracterizou-se por uma deliberação cautelosa que mostrou
a intenção de evitar qualquer inútil perda de vidas e de completar cada
estágio da operação antes de proceder-se ao seguinte. No dia 12, foi
anunciada forte resistência alemã, e contra-ataques alemães tiveram
início no dia 15. E quando a resistência polonesa ruiu, apenas os postos
avançados tinham sido tomados e as fortificações principais ainda estavam
adiante. Mas com a queda da Polônia desapareceu a urgência imediata,
e a Alemanha estava livre para mandar o grosso de seus exércitos para
a frente ocidental. Pelos
meados de outubro, uma série de ofensivas locais foi lançada contra
os franceses. Nesse meio termo, contudo, o comando francês decidira
"retrair para outras posições as divisões francesas que entraram em
ofensiva em território alemão com a finalidade de indiretamente levar
assistência aos exércitos poloneses". No fim do mês elas se tinham retirado
até às suas próprias fronteiras e as operações ficaram reduzidas a incursões
ocasionais e choques de patrulhas intercaladas de duelos de artilharia. Enquanto
os franceses efetuavam tais operações, as tropas britânicas avançavam
em maciças correntes através do Canal. A 11 de outubro, Mr. Hore-Belisha
anunciou que durante as primeiras cinco semanas de guerra 158.000 homens
tinham sido transportados à França e deu a entender que outros movimentos
estavam em progresso. A 10 de dezembro foi anunciado que tropas britânicas
estavam ocupando uma seção da Linha Maginot, entrando em contacto com
o inimigo. O
inimigo nesse meio tempo não mostrou intenção alguma de efetuar um ataque
direto contra a Linha Maginot. Ao invés, havia sinais de que a idéia
de um ataque de flanco através dos Países Baixos estava uma vez mais
exercendo uma atração sobre os líderes alemães. À medida que tropas
transferidas da Polônia começaram a concentrar-se nas fronteiras belga
e holandesa e a imprensa alemã verberava com intensidade crescente a
Holanda pela sua fraqueza em aceitar a violação de seus direitos pelos
britânicos, o alarme nesses países aumentava. A 1o de novembro
o governo holandês, que realizara inundações preliminares, proclamou
o estado de sítio em certos distritos fronteiriços. A 6 de novembro
o rei dos belgas fez uma repentina e secreta visita à rainha Guilhermina
em Haia, e no dia seguinte os dois soberanos enviaram às potências beligerantes
um apelo de paz e uma oferta de seus bons ofícios. No dia 9, a Bélgica
aumentou suas forças para 600.000 homens e a Holanda inundou outras
áreas. Havia
argumentos persistentes de que a Alemanha se tinha decidido a atacar
a 12 de novembro; mas se isto era verdade, sobreveio uma mudança de
intenção. Possivelmente a solidariedade dos dois governos neutros teve
seus efeitos, mesmo que seu apelo de paz não tenha dado resultado. Respostas
cautelosas da Grã-Bretanha e França no dia 12 eram seguidas, a 14, pela
rejeição alemã, sob o fundamento de que as respostas britânica e francesa
constituíam uma recusa. Mas embora a tensão se atenuasse, as tropas
alemães permaneceram na fronteira. Foi talvez a título de advertência,
à vista do prosseguimento do perigo, que a França anunciou no começo
de dezembro o reforçamento e a extensão da Linha Maginot, que cobriria
as fronteiras suíça e belga com uma linha defensiva que, disse o porta-voz
francês, com otimismo cauteloso; "pode muito bem ser descrita como formidável."
Em conexão com essas operações terrestres, houve uma circunstância notável
a ausência de qualquer atividade aérea intensa. Os reides mortíferos
esperados contra centros civis não se concretizaram. As próprias comunicações
atrás das linhas foram poupadas ao bombardeio. Os franceses foram capazes
de fazer avançar suas tropas; aos alemães foi permitido trazer suas
forças da Polônia ao ocidente sem interferência do ar. Os dois lados
pareciam pouco desejosos de começar, ou devido ao receio às represálias
ou por medo da opinião neutra. Houve ativos vôos de reconhecimento,
e a Royal Air Force efetuou extensos vôos para distribuição de propaganda
em território alemão. Mas a não ser choques ocasionais entre patrulhas,
as operações militares foram pouco apoiadas pelo ar. Foi mais em relação
à guerra marítima que a aviação mostrou a maior atividade. A
guerra no mar A
preponderância naval da força aliada no mar era muito maior em 1939
do que fôra em 1914. As frotas britânica e francesa juntas somavam perto
de dois milhões de toneladas; a frota alemã alcançava apenas 235.000.
Contra os quinze navios ingleses e sete franceses de grande tonelagem
(não se incluindo oito porta-aviões), a Alemanha tinha sete navios de
grande tonelagem, e, destes sete, dois datavam da última guerra e três
eram couraçados de bolso. A disparidade não era tão grande como estes
números possam indicar, pois que os aliados tinham de guardar as principais
rotas marítimas, inclusive o Mediterrâneo, e não havia meio de forçar
a inferior armada alemã a uma batalha decisiva. Mas, embora pudesse
estar na posição de realizar sérios danos, a Alemanha dificilmente ameaçaria
o domínio aliado nos mares. Trazer
essa ameaça ao máximo de sua eficácia era a tarefa de Erich Raeder,
o chefe do almirantado alemão. Havia muitas indicações de que ele estava
disposto a pôr em prática e desenvolver a tradição de Tirpitz. Era um
marinheiro experimentado que tinha lutado nos bancos de Dogger e na
Jutlândia durante a última guerra, e que alimentava as recordações da
batalha em que seu navio tinha sido afundado e as da derrota final que
fez com que a frota da Alemanha Imperial fosse posta a pique pela própria
tripulação em Scapa Flow. Segundo parecia estava preparado para conduzir
a guerra marítima com desenfreada crueldade, utilizando-se de toda a
arma que parecesse capaz de quebrar o poderio naval britânico ou de
derrotar o bloqueio instalado pelo inimigo. Em particular, fizera um
estudo meticuloso da guerra submarina, que acreditava ser o meio mais
provável para a consecução desses fins. Contra
ele, do lado britânico, erguia-se Winston Churchill. Ao romper da guerra,
o homem que tinha sido o Primeiro Lord do Almirantado em 1914 fôra novamente
chamado ao Gabinete para ocupar esse posto e trazer o peso de sua experiência
uma vez mais à tarefa de manter livres os caminhos marítimos da Grã-Bretanha
e varrer dos oceanos os navios alemães. Era uma tarefa que já ele executara
com vigor e imaginação sob circunstâncias muito mais difíceis. Se tais
qualidades pudessem novamente obter sucesso, Mr. Churchill as tinha
em abundância. A
principal arma de ataque da Alemanha contra a frota britânica era o
submarino, de que o Reich possuía, segundo cálculos, 65 quando a guerra
rebentou. Embora a sua eficácia contra navios de grande tonelagem devidamente
cercados de destróieres fosse julgada limitada, não era de modo algum
desprezível. Isto foi demonstrado a 18 de setembro, quando uma combinação
de circunstâncias permitiu a um submarino alemão afundar o Courageous,
antigo couraçado transformado em porta-aviões. Mais extraordinário ainda
foi o feito do submarino que a 14 de outubro penetrou em Scapa Flow
e pôs a pique o navio de batalha Royal Oak, causando uma perda de 812
vidas. O pleno significado desse feito apenas se patenteou mais tarde,
quando foi revelado que o mesmo resultou no abandono de Scapa Flow como
a base principal, em favor de um ancoradouro menos acessível. Outra
perda temporária foi sofrida nos princípios de dezembro, quando um couraçado
da classe de Queen Elizabeth, mais tarde identificado como sendo o Barham,
foi atingido por um torpedo, mas conseguiu chegar a um porto. Mas
também a Grã-Bretanha tinha submarinos, os quais, de modo algum, se
encontravam inativos. Em dezembro, dois feitos marcantes foram noticiados.
O submarino Salmon, realizando um cruzeiro no mar do Norte, registrou
uma combinação única de desapontamento e triunfo. Em certa altura, o
transatlântico Bremen pareceu não lhe escapar, quando regressava cautelosamente
de Murmansk a um porto pátrio. Mas quando o Salmon se preparam para
lhe mandar um tiro à proa, aviões alemães surgiram e forçaram o submarino
a emergir. Ter-lhe-ia sido assim mesmo possível torpedear o Bremen,
mas em obediência às leis de guerra o Salmon susteve o fogo e deixou
o transatlântico escapar. Em compensação, pouco depois o submarino realizou
o notável feito de afundar um submarino alemão; e, no dia seguinte,
achou-se diante de uma presa ainda mais importante, quando avistou a
frota alemã numa de suas raras excursões pelo mar do Norte. A divisão
consistia em um couraçado de bolso, dois cruzadores de batalha, dois
cruzadores pesados e do cruzador leve Leipzig. Tomando posição com cautela,
o Salmon mandou seis torpedos e em seguida mergulhou, procurando refúgio.
O seu comandante, contudo, teve tempo ainda para ver que um dos projéteis
atingiu o Leipzig; e um instante depois duas explosões indicaram que
um dos cruzadores pesados, possivelmente o Blucher, também tinha sido
atingido. E poucos dias depois um pequeno submarino inglês, o Úrsula,
realizou ousada operação na embocadura do Elba, mergulhando sob uma
rede de proteção de seis destróieres para torpedear um cruzador de 6.000
toneladas da classe do Köln e escapando incólume. Foi,
contudo, e uso de aviões contra vasos de guerra que representou um novo
aspecto da guerra naval, aspecto em torno de cuja eficiência houve muita
discussão entre os técnicos. Os resultados, depois de três meses de
guerra, eram ainda inconcludentes. No primeiro reide da guerra, efetuado
pela Royal Air Force contra o canal de Kiel, acreditou-se haverem sido
causados sérios danos a um couraçado de bolso e que projéteis atingiram
outro navio de guerra. Em dezembro; quando foram intensificados os reides
britânicos contra as bases da costa nazistas, em parte para contrabalançar
a atuação das esquadrilhas alemães de incursão e de lançamento de minas,
a caça aérea à frota germânica foi levada a efeito vigorosamente. A
3 de dezembro foi anunciado que uma forte formação de bombardeiros britânicos
tinham atacado uma divisão naval alemã nas vizinhanças de Heligoland,
fazendo sobre o navio impactos diretos com bombas pesadas. Mas as defesas
alemães foram enrijecidas, e o reide seguinte, a 18 de dezembro, resultou
no mais vigoroso encontro aéreo até então travado. Os alemães, de fato,
clamaram que 52 aviões britânicos tinham tomado parte no reide e que,
destes, 36 foram abatidos - um número de baixa maior que o verdadeiro
efetivo da esquadrilha britânica. A Grã-Bretanha reconheceu a perda
de 7 aparelhos ingleses contra 12 alemães, e apresentou isto como um
resultado satisfatório da atuação de aviões de bombardeio diante dos
novos caças Messerschmitt, que em número considerável, haviam tomado
parte na ação. Os
alemães, por sua vez, tentaram vários reides que, apesar de suas afirmações,
não foram coroados de êxito. A 27 de setembro e 9 de outubro a frota
repeliu ataques sem sofrer perdas, e a persistente afirmativa alemã
sobre o afundamento de Ark Royal desfez-se gradualmente em face da evidência
cada vez mais nítida de que o porta-aviões continuava intacto. Um ataque
a 16 de outubro contra navios ancorados no Firth of Forth teve resultados
algo melhores. Nenhuma avaria foi causada nos navios propriamente ditos,
conquanto o cruzador Southampton tenha recebido um impacto de refilão;
e as baixas, como as ocorridas no cruzador Edinburgh e no destróier
Mohawk, foram resultantes de estilhaços de bombas. No dia seguinte,
num ataque a Scapa Flow, foi atingido por impactos o velho Iron Duke,
que estava em uso como navio-base, mas deles não resultaram baixa. Tendo
todos esses reides resultado em baixas para os atacantes, suas pequenas
vantagens devem ter parecido desencorajadoras. Pelo mês de dezembro,
os aviadores alemães, depois de darem buscas pela principal frota britânica
nas Shetlands, voltaram a sua atenção para navios de pesca e embarcações
leves de preferência às presas menos vulneráveis e mais perigosas. Mas
o aspecto mais ativo da guerra no mar foi a campanha submarina contra
a navegação mercante. O afundamento do navio de passageiros Athenia
no primeiro dia da guerra, foi uma clara indicação de que uma guerra
submarina irrestrita seria recomeçada no ponto em que tinha terminado
em 1918. Com centenas de navios britânicos a seguir sua tarefa individual
ao rebentar a guerra, a proteção tornou-se difícil a princípio e as
perdas eram naturalmente sérias. Mas os ingleses haveriam de aplicar
rapidamente as lições aprendidas na guerra anterior. A organização de
um sistema de comboios, a resposta mais eficaz aos submarinos, foi rapidamente
posta em prática e mostrou resultados imediatos. De conformidade com
as declarações de Mr. Churchill a 6 de dezembro, as perdas em navios
mercantes britânicos no mês de outubro eram a metade do que foram em
setembro, e em novembro se limitaram a dois terços do que tinham sido
em outubro. Embora a Grã-Bretanha tivesse dois mil navios sempre no
mar, e entre cem e cento cinqüenta a entrar e sair diariamente dos portos
britânicos, 110.000 toneladas para cada mil toneladas afundadas, as
perdas totais eram de 340.000 toneladas. (Ao fim desse ano, as perdas
tinham atingido a 460.000 toneladas). Mas a Grã-Bretanha começara a
guerra com 21.000.000 de toneladas, e entre capturas de navios inimigos,
transferências de pavilhões neutros e novas construções, ela recuperou
cinco sextos de suas perdas. Em
face dessas defesas, a Alemanha recorreu a dois expedientes: - ataques
dos submarinos contra navios neutros e lançamento indiscriminado de
minas. As perdas neutras causadas pelos submarinos aumentavam gradualmente
à medida que a guerra progredia; e as perdas neutras causadas pelas
minas eram o dobro das da Grã-Bretanha. Essas minas espalhadas ao longo
da costa britânica estavam em muitos casos equipadas com dispositivos
magnéticos capazes de fazê-las explodir sem contacto direto. Parece
que algumas dessas minas foram lançadas por aviões. Para combater tais
ataques a Grã-Bretanha acrescentou uma extensa varre-minas à caça ininterrupta
e implacável aos submarinos. Mr. Churchill calculou que de dois a quatro
submarinos tinham sido destruídos cada semana. Isto, disse ele, "era
uma soma superior à que esperávamos da potência alemã em substituir
os seus submarinos e respectivos capitães e tripulações treinadas...
Ao receber informações de que a Alemanha, durante o ano de 1940, terá
um total de 400 submarinos em serviço e de que eles estão fabricando
esses barcos pelo sistema de produção em série, fico a pensar se eles
estão preparando capitães e tripulações para os submarinos com um método
similar." Sua declaração de que 144 prisioneiros arrebanhados em submarinos
estavam na Inglaterra, pode ser comparada com a situação do fim de 1916,
quando 180 prisioneiros representaram uma perda de 46 submarinos alemães.
Nessa base, a Alemanha, ao fim da primeira semana de dezembro de 1939,
deve ter perdido 36 submarinos ou mais da metade de sua frota de pré-guerra.
Além disso, a Grã~ Bretanha, pelos fins de dezembro, anunciou a intenção
de colocar uma barragem de minas protetoras de 800 km. de comprimento
e 50 a 70 km. de largura ao longo de sua costa oriental. Mas
além dos submarinos, das minas e dos bombardeiros, havia uma ameaça
cuja eliminação era tarefa da marinha. Esta consistia nos navios mercantes
armados em guerra. Lembranças dos estragos causados pelo Emden durante
a última guerra tornaram a Grã-Bretanha particularmente vigilante em
relação a esse perigo. Ele poderia provir de navios mercantes alemães
armados, tais como o Windhuk, que escapuliu do porto de Lobite na África
Ocidental Portuguesa a 17 de novembro. Ou poderia vir de navios de guerra
alemães capazes de livrar-se das patrulhas britânicas, e particularmente
dos três couraçados de bolso cuja combinação de velocidade e capacidade
ofensiva tornavam-nos particularmente adequados a reides contra a navegação
comercial. Tornou-se
cedo evidente que pelo menos dois navios estavam ao largo empenhados
exatamente nessa atividade. A 2 de outubro um cargueiro britânico, o
Clement, foi afundado por um corsário ao largo da costa brasileira.
A 9 de outubro, o Deutschland, que já tinha afundado o cargueiro britânico
Stonegate, revelou sua presença no Atlântico norte pela captura do cargueiro
americano City of Flint - começando assim um episódio misto de drama
e comédia que findou quando o navio, tentando alcançar a Alemanha, procedente
de Murmansk via costa norueguesa, foi levado ilegalmente ao porto de
Haugesund pela tripulação alemã de presa, e conseqüentemente apreendido
pelas autoridades norueguesas e entregue aos seus proprietários americanos.
Seis semanas depois, ao largo da costa meridional da Islândia, o Deutschland,
em companhia de um vaso de guerra alemão de tipo mais leve, topou com
o navio mercante armado Rawalpindi, que foi posto a pique depois de
uma luta heróica, mas sem esperança contra forças superiores. Com a
aproximação de um cruzador britânico, o Deutschtand desapareceu nos
nevoeiros setentrionais; e se ele efetuou outras depredações quaisquer,
estas não foram reveladas ao mundo. Estava
claro então que também um segundo corsário estava em atividade. O afundamento
do Clement a 2 de outubro abriu um caminho que conduziu através do Atlântico
sul até Moçambique, onde o African Shell foi capturado a 15 de novembro
por um navio mais ou menos identificado como sendo o Admiral Scheer.
Então o caminho voltou-se para a América do Sul, onde teve um fim a
13 de dezembro. Nessa
data o corsário, então pela primeira vez identificado como sendo o Admiral
Graf Spee, estava navegando rumo sul ao longo da costa uruguaia quando
avistou o vapor francês Formose escoltado pelo cruzador britânico Exeter,
de 10.000 toneladas. O comandante alemão, capitão Langsdorff, imediatamente
ofereceu batalha. Mas as probabilidades a seu favor ficaram reduzidas
quando os dois cruzadores leves, Ajax e Achilles, acorreram rapidamente
ao chamado do Exeter para tomar parte no combate. Mesmo
assim, o capitão alemão deve ter tido razões para achar que o seu navio
era superior à força combinada dos seus adversários. Seus armamentos
mais pesados eram os seis canhões de 205 mm do Exeter. Os dois cruzadores
leves dispunham apenas de canhões de 150 mm. O Graf Spee tinha duas
torres cada uma das quais com três canhões de 279 mm, cujo alcance era
três mil metros maior que o de qualquer canhão do Exeter e cinco mil
metros maior que o dos canhões do Ajax e do Achilles. Seus projéteis
eram de 300 kg., comparados com as de 124 kg. que eram os projéteis
mais pesados do Exeter. Tanto em alcance como em capacidade de ofensiva,
o navio alemão era definitivamente superior. Do
que ele carecia era velocidade. Seus 25 nós eram suficientes para um
navio tão pesadamente armado; mas os cruzadores britânicos tinham uma
velocidade de 32 nós, que usaram com brilhante vantagem. A batalha iniciou-se
às seis horas "numa bela manhã com mar amplo" (como a descreveu mais
tarde o comandante do Ajax); e quando os navios britânicos com a sua
velocidade superior colocaram-se entre o Graf Spee e o Alto mar, o comandante
alemão não teve oportunidade de evitar a batalha mesmo que assim o quisesse. Nas
primeiras fases do encontro foi o Exeter que levou a pior. Os cruzadores
mais leves levaram algum tempo para chegar ao alcance de tiro, e isto
permitiu ao Graf Spee concentrar-se contra o seu adversário mais formidável.
Nas quatro horas seguintes, suas granadas pesadas fizeram entre 40 e
50 impactos no Exeter, danificando sua roda de leme e pondo fora de
ação seus canhões mais pesados. Pelas 10 horas da manhã, com apenas
um de seus canhões de 203 mm. disparando, e este mesmo manejado à mão,
o Exeter estava praticamente forçado a ficar fora de qualquer intervenção
efetiva na batalha. A
esse tempo, entretanto, tanto o Ajax como o Achilles estavam em luta
e se aproximando rapidamente do Graf Spee... O Ajax movia-se entre o
navio alemão e a costa, ficando o Achilles ao outro lado, e os canhões
de 150 mm. dos dois cruzadores martelavam com ferocidade no decorrer
de uma batalha móvel rumo ao sul. Os cruzadores britânicos fizeram uso
eficaz de cortinas de fumaça para cobrir seus movimentos e de sua velocidade
para manobrar sobre o Graf Spee e forçá-lo a dividir seu fogo. Pelo
meio da tarde o Graf Spee encontrava-se numa situação séria, com a popa
danificada e a torre de controle destruída, e com tantos feridos entre
a sua tripulação que sua capacidade de luta estava seriamente diminuída.
Mas, embora tentasse escapar, o Exeter avariado ainda o perseguia, cortando-lhe
a retirada rumo norte, e os dois cruzadores leves utilizavam-se agora
das cortinas de fumaça para mais se aproximar do Graf Spee e martelar-lhe
os costados de uma distância de fogo incrivelmente pequena. Os impactos
que eles colocaram na proa justamente acima da linha d'água fizeram
enormes estragos e asseguraram a vitória britânica. Um impacto no Ajax,
que lhe deixou em ação apenas duas de suas quatro torres, deu ao Graf
Spee uma trégua muito necessária e a chegada da escuridão permitiu-lhe
escapar para procurar, a toda velocidade, segurança neutra em Montevidéu.
Quando à meia-noite ele avistou pela primeira vez os contornos do porto,
estava reduzido a um navio completamente derrotado. A
fase seguinte foi uma batalha diplomática em torno do tempo que ele
tinha o direito de permanecer naquele porto. A Alemanha clamou para
que lhe fosse dado tempo de refazer-se. A Grã-Bretanha insistiu em que
não lhe fosse permitido fazer reparos. Depois de proceder a uma investigação,
as autoridades uruguaias ordenaram ao capitão Langsdorff, apesar dos
seus protestos, partisse às 8 horas da noite de domingo de 17 de dezembro.
É claro que isto não permitiria ao Graf Spee recobrar sua capacidade
combativa; e havia informes de que seus recentes adversários, que o
aguardavam vigilantes na embocadura do Rio da Prata, tinham sido grandemente
reforçados por unidades ainda mais poderosas. Parecia uma alternativa
entre enfrentar a derrota em face de forças superiores ou submeter-se
ao internamento pelo resto da guerra. Cumprindo ordens diretas do governo
alemão, o capitão Langsdorff optou por uma terceira solução. As 6,30
da noite do dia 17 levou seu navio para fora do porto, desembarcou a
tripulação, e meteu-o a pique nos baixios distantes três milhas da costa.
Três dias depois, o capitão Langsdorff suicidou-se em Buenos Aires,
onde ele e a maioria de sua tripulação tinham encontrado refúgio. Este
fim ignominioso de uma belonave antes tão altiva acentuou ainda mais
a importância vital de todo o episódio. Foi mais tarde sublinhado pela
revelação de que o único reforço à esquadra britânica tinha sido o cruzador
pesado Cumberland, que substituiu o Exeter avariado. O Graf Spee não
teria a enfrentar força alguma superior que a que antes se encontrara.
O fato era, contudo, que essa mesma força lhe tinha sido demasiada.
Antes da batalha do Rio da Prata era crença geral que apenas os mais
novos cruzadores de batalha poderiam enfrentar os couraçados de bolso.
Agora ficou demonstrado que navios bem menores, mas de maior velocidade,
lidando com perícia e ousadia acima de todos os louvores, tinham podido
enfrentar decididamente o orgulho da frota alemã. O mito do couraçado
tinha sido destruído logo na primeira prova. A
guerra econômica e os neutros Nenhum
desses esforços navais, naturalmente, representou um fim em si próprio.
Atrás da luta nos mares ocultava-se a firme vontade de cada lado de
preservar sua própria vida econômica e de arruinar a do antagonista.
Nessa frente econômica realizava-se uma luta vital e possivelmente decisiva
em que todo o poderio dos beligerantes estava empenhado. A
primeira tarefa de cada nação era a de assegurar os suprimentos essenciais
à sua vida nacional e capacidade bélica. Isto significava não apenas
assegurar suas necessidades primárias por meio da importação; significava
também acesso continuado aos mercados de exportação, através dos quais
as importações pudessem ser pagas. Hitler, antes da guerra, tinha descrito
a Alemanha como uma nação que tinha que exportar ou morrer. Para a Grã-Bretanha,
e numa extensão bem menor da França, tal necessidade também era vital.
Na guerra como na paz, disse Mr. Chamberlain a 20 de setembro, "nossas
vidas dependem da corrente ininterrupta de comércio, e é nossa política
fundamental preservar, o mais possível, as condições do comércio normal". O
corolário inevitável disto foi um esforço por todos os meios possíveis
para interromper o comércio do inimigo. Mr. Chamberlain descreveu o
objetivo britânico como sendo o de desorganizar a estrutura econômica
alemã tornando-lhe impossível a condução da guerra. Objetivo idêntico
era visado pela Alemanha em relação à Inglaterra. As armas germânicas
eram o submarino e o corsário comercial, juntamente com a pressão diplomática
sobre vizinhos neutros subjugados, afinal, pela ameaça de uma invasão
armada. As armas aliadas eram o bloqueio submarino da Alemanha e uma
diplomacia apoiada pelo poderio econômico. Está
claro que para um ataque assim, e ainda mais para a defesa essencial,
o controle do mar era muito mais vital para os aliados do que para a
Alemanha. A Inglaterra em particular era altamente vulnerável a um bloqueio
eficaz. Dependia ela da importação de 75% de seus gêneros alimentícios
e da quase totalidade de suas matérias-primas industriais, exceção feita
ao carvão e ao minério de ferro. A França também, embora em matéria
de alimentação fosse praticamente auto-suficiente, tinha de trazer de
fora suas matérias-primas essenciais. Com o controle do mar, entretanto,
quase todas as suas necessidades poderiam ser satisfeitas pelos países
marginais da costa Atlântica. A Alemanha sob tais circunstâncias ficaria
impedida de manter contacto direto com esses países; e para a obtenção
de um terço das matérias-primas que normalmente importava, ela tinha
que depender antes de tudo de seus vizinhos do continente. Nessa
guerra econômica, portanto, as nações neutras ocuparam uma posição de
importância vital. Mesmo antes da irrupção de hostilidades armadas elas
tinham sido o teatro principal da guerra não declarada. Essa luta cresceu
agora de intensidade; e fora dos campos de batalha propriamente dito,
os neutros ofereciam passagem para um ataque econômico de flanco, por
meio do qual poderia ser dado um golpe capaz de ser final e decisivo. Os
neutros ocidentais estavam conseqüentemente sob forte pressão diplomática
de ambos os lados logo desde o começo. A Suécia era particularmente
importante para os alemães em virtude do seu minério de ferro que fornecia
41% das importações alemães desse gênero. A Holanda e a Bélgica, embora
de menor significação como fontes de suprimento, eram importantes como
possíveis canais através dos quais material de fora poderia infiltrar-se
na Alemanha. Mas, os esforços alemães pareciam obter sucesso relativamente
pequeno. A 14 de novembro, suas conversações com a Suécia sofreram interrupção,
segundo parecia, porque a Alemanha exigia praticamente o monopólio do
comércio sueco. A 27 de dezembro, em contraste, a Grã-Bretanha foi capaz
de concluir um acordo que prometia atrair a Suécia à órbita comercial
aliada. Seguiram-se-lhe acordos com a Islândia e a Bélgica. e pelo fim
do ano havia boas perspectivas de relações satisfatórias entre os aliados
e os neutros da Europa ocidental. Na
Europa oriental a situação era algo mais complexa. Tratava-se de uma
área em que o comércio alemão tinha realizado um avanço dominador nos
anos que precederam a guerra, e a qual poderia fornecer algo como 20%
da importação normal da Alemanha. Mas, a base desse comércio indicou
um aspecto vulnerável da economia alemã. Este era a carência de fundos
líquidos para o livre comércio exterior. Sua reserva oficial em ouro,
cerca de 77 milhões de marcos, estava bem abaixo de 1% de sua circulação
fiduciária. Suas inversões no estrangeiro, em contraste com as de 1914,
eram negligenciáveis. As reservas de ouro e câmbio estrangeiro de todas
as fontes podiam perfazer um total de dois bilhões de marcos, mas mesmo
isto pagaria apenas um terço das importações alemães em 1938. Em conseqüência,
seu comércio exterior tinha sido construído predominantemente sobre
uma base bilateral de trocas; e em vista das exigências da economia
de guerra, parecia duvidoso que a Alemanha pudesse realizar as exportações
de mercadorias necessárias ao pagamento das importações de que ela tanto
precisava. Neste
particular, os aliados estavam numa posição muito mais flexível. Antes
da guerra, pouco mais que 1,5°/o do seu comércio era feito com a Europa
sul oriental. Mas, para o caso de excluir a Alemanha daquela área, os
aliados tinham grande vantagem de serem capazes de pagar à vista. Os
estoques de ouro da Grã-Bretanha perfaziam 560 milhões de libras esterlinas
e suas inversões no exterior eram estimadas em 1.172.000.000 de libras
esterlinas. A França tinha reservas de ouro no valor de 1.702.000.000
de dólares e haveres no estrangeiro entre 90 e 180 bilhões de francos. Este
era o potencial econômico que os aliados utilizaram para atrair os neutros
não expostos à pressão de bloqueio. "Temos contratos consolidados" -
disse o Ministro da Guerra Econômica da Grã-Bretanha - "de uma espécie
que, em tempos de paz, faria estremecer os sóbrios homens de negócios."
Comprava-se de países com que os aliados em tempo de paz tinham pouco
ou nenhum negócio, mas dos quais a Alemanha poderia obter produtos essenciais.
Eram pagos preços mais altos do que o necessário para a compra desses
mesmos produtos em outra parte. A Turquia, que se recusara a renovar
seu tratado comercial com o Reich quando esse expirou no fim de agosto,
foi recompensada com um empréstimo substancial e compras aliadas de
todo o seu estoque de cromo, figos e uvas. O cobre da Iugoslávia, que
normalmente ia para a Alemanha, foi atraído para os aliados, que também
lhe compraram toda a safra de ameixa exportável. Em torno da Romênia
travava-se intensa luta. Em março, a Alemanha firmou um acordo que colocou
à sua disposição grande parte dos recursos da Romênia, especialmente
petróleo de que ela tão desesperadamente necessitava. Após o rebentar
da guerra, foram entabuladas negociações no sentido de aumentar a exportação
de petróleo romeno para o Reich e da obtenção de uma taxa mais favorável
de câmbio. No dia 20 de dezembro foi anunciado que a Romênia tinha concordado
em elevar suas exportações de petróleo para a Alemanha a um mínimo de
130.000 toneladas mensais sobre as 80.000 toneladas que tinham prevalecido
desde o rompimento da guerra, e a acelerar a entrega de outras 260.000
toneladas, que seriam objeto de acordo prévio. A taxa de câmbio de 40
lei para o marco, que a Alemanha desejava fosse elevada a 60, foi em
verdade elevada a 49. Dois dias mais tarde, entretanto, sob pressão
aliada, essa taxa foi reduzida a 44,75 para o que dissesse respeito
a todas as exportações importantes, com exceção do feijão soja. Era
claro que mesmo neste caso a pressão financeira aliada não era de modo
algum negligenciável. A importância de suas reservas em caixa foi indicada
pelas estatísticas do comércio britânico no mês de dezembro, as quais
mostravam uma importação de 86 milhões de libras esterlinas contra uma
exportação de 42 milhões de libras esterlinas. Somente enérgicas medidas
financeiras puderam fazer com que uma balança comercial tão adversa
pudesse ser conscienciosamente equilibrada por esses métodos de guerra
econômica. No
caso dos países que careciam de comunicações diretas com a Alemanha,
o progresso foi menos dispendioso. Na América do Sul, onde o cumprimento
pela Alemanha de seus acordos de troca não mais era possível, os aliados
tinham possibilidades de insistir na obtenção de termos favoráveis.
O significado disto foi ilustrado por uma circular endereçada pelo Departamento
Argentino de Controle Cambial aos importadores e homens de negócios
a 20 de novembro, acentuando que o volume das vendas aos aliados dependeria
do montante que estes comprassem da Argentina. No caso da Espanha, a
interrupção das ligações comerciais estabelecidas com a Alemanha pelo
governo de Franco, e a necessidade desesperadora que este tinha de câmbio
estrangeiro, fizeram com que a Espanha entrasse em acordo sobre a venda
de minério de cobre e de ferro aos aliados. Mas, de todos esses fatos,
o de importância mais vital foi a mudança dos termos da Lei de Neutralidade
adotada pelos Estados Unidos. A
lei original foi adotada como resolução em 1935, tomando em 1937 a forma
de medida permanente. Seu primeiro objetivo foi evitar que os Estados
Unidos ficassem envolvidos numa guerra, em conseqüência de compromissos
econômicos. Com este propósito, a lei proibia a venda de munições ou
a concessão de empréstimos a beligerantes. Mas, era natural que nisso
houvesse também um desejo de continuar o comércio de modo tão extenso
quanto possível, sem arriscar-se a uma guerra. E quando a crise na Europa
se revelou, tornou-se claro que o sentimento do povo americano orientava-se
de modo crescente em favor dos aliados e ansioso por não se ver envolvido
na luta - sentimento ardentemente compartilhado pela administração Roosevelt. Quando
a guerra rebentou, portanto, o presidente primeiro aplicou a lei existente
por uma proclamação a 5 de setembro, e depois convocou uma sessão especial
do Congresso para o dia 21 de setembro a fim de serem discutidas emendas
à lei, especialmente a supressão do embargo absoluto de armas. A nova
lei, conforme foi aprovada a 4 de novembro, provocou uma diferença fundamental
no projeto aliado para a obtenção de suprimentos americanos. Ao invés
da proibição, foi adotado o princípio do cash and carry com respeito
a vendas aos beligerantes. Nenhum armamento lhes poderia ser levado
por navios americanos e todos os títulos referentes a mercadorias exportadas
aos beligerantes tinham que ser transferidos antes que essas mercadorias
deixassem o território americano. A interdição dos empréstimos a beligerantes
foi mantida; mas foi possível então aos aliados, por meio de um uso
cuidadoso de seus recursos em numerário, chamar para seu lado a capacidade
produtiva da indústria americana. Embora os navios americanos estivessem
proibidos de entrar na zona de guerra, e assim não fossem de utilidade
para os aliados, havia ao menos a compensação de que essa mesma decisão
teria a probabilidade de evitar, para os americanos, quaisquer prejuízos
importantes, conseqüentes do bloqueio aliado. A
eficácia do bloqueio foi uma das lições mais edificantes da última guerra.
Mal rebentou a nova conflagração, foram postos em execução planos destinados
a reviver e fortalecer os métodos que então tinham sido utilizados.
O Ministério da Guerra Econômica foi instituído na Grã-Bretanha sob
a chefia de Mr. Ronald Cross. A lista de contrabando absoluto emitida
pelo ministério incluiu não apenas armas e munições mas também combustíveis,
máquinas de transporte e animais, artigos de comunicação e "moedas,
metais preciosos em barras, dinheiro corrente, provas de débito". O
contrabando condicional, que poderia ser aplicado se assim o desejasse
o governo alemão ou suas forças armadas, compreendia "toda a sorte de
gêneros alimentícios preparados ou não, forragens, vestuário e artigos
e materiais usados para a sua produção." A 8 de setembro, cinco portos
de controle de Kirkwall a Haifa, foram instituídos; neles os navios
deveriam ser revistados. Outros portos de controle seriam mais tarde
acrescentados a esse número. A 1o de dezembro esta medida
foi reforçada pelo sistema de navicert - revista nos portos neutros
das cargas de exportação e a emissão de certificados àqueles que estivessem
sujeitos à denominação de contrabando, certificados esses que lhes facilitariam
a passagem pelo controle. O
efeito disso tudo foi extremamente amplo. Mesmo os países danubianos
sentiram-no de modo prático. A rota normal do comércio da Hungria e
da Romênia ia através do mar Negro e do Mediterrâneo aos portos alemães
do norte. Agora, a Alemanha era forçada a tentar desenvolver a montante
do Danúbio acima; e quando o gelo fechou o rio, no começo de dezembro,
os alemães ficaram na dependência do transporte por estrada de ferro,
o qual parecia completamente inadequado às suas necessidades de importação
de matérias provenientes da Europa sul-oriental. De um modo similar,
grande proporção do minério de ferro sueco era normalmente exportada
através do porto norueguês de Narvick sobre o Mar do Norte. Uma parte
seguia no verão através de Lulea sobre o Báltico. Mas este porto estava
fechado ao tráfego marítimo durante os meses hibernais. Mais ainda,
o poder inglês de efetivar o bloqueio, com o seu escopo de provocar
danos e retardamentos onerosos, forneceu-lhe uma poderosa arma contra
qualquer desejo dos neutros de agir como intermediários a favor da Alemanha.
Desde o começo, os neutros foram praticamente racionados às suas cotas
de importação normais, e uma aquiescência a isto foi um dos aspectos
do tratado sueco, indubitavelmente modelo para outros. Sua eficácia
é revelada por cifras: durante o primeiro mês da guerra, a Grã-Bretanha
capturou 150.000 toneladas mais de navios mercantes alemães do que perdeu
em conseqüência de ataques submarinos. Ao fim do ano, os aliados calcularam
terem tomado aproximadamente um milhão de toneladas, relativo a 10%
de toda a importação anual da Alemanha. E, além disso, entre 400 e 500
navios da frota alemã ficaram imobilizados em portos espalhados por
todo o mundo; pois, embora ocasionalmente algum navio escapulisse, -
como é o caso da saga do Bremen, que chegou à Alemanha procedente de
Nova Iorque, via Murmansk - os acontecimentos mais comuns eram como
os do Cap Norte, apreendido em alto mar, o de Columbus, afundado pela
própria tripulação afim de evitar a captura, e do Tacoma, internado
em Montevidéu. As importações alemães do exterior estavam sendo reduzidas
a quase nada - e a Alemanha, que já tinha reduzido as importações para
quase o mínimo, pouco podia fazer para minorar os efeitos do bloqueio. Depois
das importações, as exportações. Tendo cortado as primeiras, os aliados
procuraram estrangular estas, a fim de evitar que a Alemanha pagasse
por importações tais como as que realizara. A 21 de novembro foi anunciado
que em represália à colocação ilegal e indiscriminada de minas efetuada
pela Alemanha, os aliados resolveram capturar todas as exportações alemãs
onde quer que as encontrassem. Seguiram-se a isto vigorosos protestos
da maioria das nações neutras, mas elas não conseguiram revogar a decisão.
A 27 de novembro, o rei Jorge firmou a necessária ordem do Conselho
e a 4 de dezembro a medida foi posta em prática. Havia,
contudo, um neutro importante não atingido por todas essas medidas -
uma potência cujas novas relações com a Alemanha tornavam-se o grande
ponto de interrogação no quadro diplomático e econômico e talvez mesmo
no militar. Essa nação era a União Soviética. O
avanço da Rússia Desde
a data do pacto de não-agressão, a Alemanha procurou dar ao mundo a
impressão de que suas novas relações com a Rússia eram tão estreitas
que seriam capazes de conduzir a quase uma aliança militar. Cada novo
acontecimento foi apresentado como um passo para mais perto da cooperação
completa. O tratado de 29 de setembro, com a sua promessa de conjugar
esforços em favor da paz e de promover consultas mútuas se estes esforços
falhassem, foi apresentado como um prenúncio da entrada da Rússia na
guerra. E as cláusulas que prometiam uma troca de matérias-primas russas
por produtos industriais alemães numa escala que traria a troca de mercadorias
ao nível máximo obtido no passado, pareciam indicar uma reviravolta
completa das anteriores relações econômicas. Os
verdadeiros fatos, entretanto, não estavam inteiramente em harmonia
com tais concepções. A falência da oferta de paz de Hitler, conquanto
tenha provocado uma nova diatribe do Sr. Molotov contra os aliados,
fez com que a Rússia manifestasse o firme desejo de manter sua neutralidade.
A troca de produtos, apesar de uma promessa a 9 de outubro de que começaria
imediatamente, deixou de desenvolver-se em grau apreciável. Quanto
às armas russas, ficou logo claro que elas não tinham outra utilidade
senão a de serem logo postas ao serviço do Reich. A
verdade era que a Rússia pensou tirar vantagem da única posição em que
a guerra a colocara. Nunca desde a Revolução tinha estado ela tão livre
do receio de um ataque imediato. A conclusão de um armistício com o
Japão a 16 de setembro reforçou essa liberdade. Mas aí havia ainda o
receio de que um ataque acabaria por ser dirigido contra ela de parte
das potências capitalistas. Sua determinação era tirar vantagem do presente
para reforçar sua posição contra essa eventualidade, e particularmente
consolidar seus flancos enquanto a Alemanha mantinha o centro ocupado. Seus
esforços no flanco meridional não foram, em absoluto, coroados de êxito.
Tratava-se aí da Turquia, com a qual a Rússia iniciara negociações a
22 de setembro. Conquanto nenhum detalhe preciso tenha sido revelado,
parecia que os objetivos da Rússia eram o fechamento dos Estreitos contra
potências externas, e a criação de um bloco balcânico que realizaria
um ajuste as espensas da Romênia. De qualquer modo, os turcos recusaram-se
a aceitar as exigências russas. Embora as negociações tenham finalizado
a 17 de outubro com protestos mútuos de amizade contínua, o máximo assegurado
foi afastar a Rússia dos efeitos da aliança anglo-turca firmada dois
dias depois. E a ameaça de uma penetração russa ergueu tanto a Itália
como as nações balcânicas para a exploração, em seu próprio favor, da
possibilidade de um pacto defensivo. Embora no momento o problema da
Romênia omitisse de qualquer acordo, era claro que qualquer ameaça direta
por parte da Rússia encontraria séria resistência. Na
frente setentrional, em contraste, o avanço russo foi espetacular. Ministros
dos Estados Bálticos foram convocados a Moscou para negociações. Foram,
ouviram e concordaram. Um tratado com a Estônia a 29 de setembro, promovendo
a assistência mútua, deu aos Sovietes direitos a guarnições militares
e bases navais e aéreas em solo estoniano. Este serviu de modelo para
os tratados concluídos com a Letônia a 5 de outubro e com a Lituânia
a 10 de outubro, o último dos quais devolveu à Lituânia o distrito de
Vilna há muito desejado. Esses tratados tornaram a influência russa
suprema numa esfera que sempre tinha sido considerada de influência
alemã; e para demonstrar isto, o Reich, a 7 de outubro, convidou todos
os cidadãos de origem alemã residentes nesses países a retornarem à
Alemanha, com a intenção anunciada de estabelecê-los nos distritos recém-anexados
da Polônia. Estava claro que Stalin estava disposto a não ter nas mãos
problema nenhum relativo a minorias alemães molestadas. O
próximo na lista era a Finlândia; e aqui o avanço veloz e sem obstáculos
da Rússia topou com dificuldades. A 9 de outubro foram iniciadas as
negociações numa atmosfera que mostrou que o governo finlandês estava
pelo menos encarando a possibilidade de resistência. Nos dois dias seguintes
os habitantes das cidades mais expostas foram avisados de que deviam
evacuá-las como medida de precaução. No dia 14, a Finlândia anunciou
que qualquer espécie de aliança estava fora de questão. As negociações,
suspensas de uma vez, foram definitivamente rompidas a 13 de novembro.
Foi revelado que as exigências russas se referiam principalmente à segurança
de Leningrado e do golfo da Finlândia. Para esta finalidade, eles pediram
certas ilhas no golfo e uma base naval à entrada de Hangoe; a cessão
de um território no istmo de Carélia que removeria a fronteira finlandesa
bem para fora do alcance de artilharia contra Leningrado; e um ajuste
da fronteira na região de Petsamo. A Rússia, de sua parte, estava pronta
a ceder 5.500 km² ao longo da parte média da fronteira. Os finlandeses
queriam uma nova discussão em torno da cessão da ilha de Hogland e estavam
irremovíveis na recusa de emprestar ou vender o porto de Hangoe, o que,
asseguraram, seria inconsistente com a sua política de neutralidade. Pareceu
por um momento que a Rússia estivesse disposta a contemporizar na crença
de que os finlandeses acabariam finalmente por chegar a um acordo. Mas,
na última semana de novembro, esta atitude mudou abruptamente, e uma
campanha de injúrias foi lançada subitamente contra o governo finlandês.
A 26 de novembro, a Rússia protestou contra um pretenso incidente fronteiriço
de tiroteios. A 28, a Rússia denunciou seu pacto de não-agressão com
a Finlândia. Uma oferta finlandesa de negociações não foi tomada em
consideração e no dia 30 as tropas soviéticas invadiram a Finlândia. O
resultado foi uma explosão mundial de indignação. Já tinha havido expressões
diretas de simpatia tanto da parte do presidente Roosevelt como dos
soberanos escandinavos, que se tinham reunido em conferência a 18 de
outubro. A Suécia a 3 de dezembro atuou como intermediária na apresentação
a Moscou de uma nova oferta finlandesa; mas a Rússia tinha organizado
um governo finlandês próprio em Terijoki dois dias antes, e ignorou
a nova medida. Mas, a 2 de dezembro a Finlândia deu um novo passo tendente
a obter apoio, apelando para a Liga das Nações baseada nos artigos 11
e 15. A
Liga agiu com uma prontidão algo inusitada. Quando um apelo inicial
viu-se à frente da asserção russa de que ela não estava em guerra com
a Finlândia, o Conselho foi convocado para 9 de dezembro e a Assembléia
para 11 do mesmo mês. Quando a Rússia não levou em consideração outro
apelo para aceitar a mediação da Liga, estes organismos adotaram uma
resolução condenando a URSS como agressora e estabelecendo que ela se
colocara fora da Liga das Nações. Apelaram em seguida para os seus membros
no sentido de que emprestassem à Finlândia toda a assistência dentro
de suas possibilidades. Tornou-se
em breve evidente que, embora fosse dada certa assistência por meio
de movimentos voluntários e suprimentos, nenhum país estava ainda preparado
para efetuar uma ação militar direta em favor da Finlândia. Mas, enquanto
aguardavam a ajuda dos outros, os finlandeses mostraram-se extremamente
dispostos a defender-se a si mesmos. A
invasão russa deu-se em cinco pontos principais. Ao norte, o porto de
Petsamo foi capturado e uma expedição mandada rumo sul. Ao mesmo tempo,
uma segunda expedição encaminhou-se para a extremidade do golfo de Bothnia,
via Sala, e uma terceira procurou penetrar a "cintura" da Finlândia
em torno de Suomussalmi. O objetivo principal dessas forças, comparativamente
pequenas em número, era a estrada de ferro que circundava a extremidade
do golfo de Bothnia e ligava a Finlândia com a Suécia. Mas,
o esforço principal teve lugar no sul. No istmo de Carélia, as posições
fortificadas finlandesas - a linha Mannerheim - opuseram formidável
obstáculo a um ataque direto. Os russos de momento contentaram-se com
um ataque de fixação nesta zona, e procuraram flanquear as defesas finlandesas
com o lançamento de seu principal avanço em duas colunas em torno do
norte do lago Ladoga. Todas
essas colunas tiveram um certo êxito inicial, que incluiu a captura
de Petsamo e um avanço além de Salla até o rio Kemi. Pelo fim do ano,
entretanto, nenhuma só das cinco colunas isoladas conseguiu alcançar
seu objetivo essencial. As tropas utilizadas nas primeiras fases eram
em muitos casos de qualidade inferior. Havia uma incrível falta de coordenação
entre os diversos comandos. No caso das comunicações e abastecimentos,
os russos dependeram da única e não muito adequada rota da estrada de
ferro de Murmansk. Os finlandeses, que tinham a vantagem de lutar em
linhas interiores, possuíam também uma rede de estradas de ferro da
qual podiam dispor tanto para abastecimentos como para reforços, e demonstraram
uma qualidade de organização incomparavelmente melhor que a dos russos.
Foram capazes de barrar as colunas envolventes ao norte do lago Ladoga
e depois mandar forças para o norte a fim de infligir novos reveses
aos russos em Sala e Suomussalmi. Pelo fim de dezembro, a desordenada
máquina militar russa parecia temporariamente paralisada; e o prestígio
tanto militar como moral da União Soviética estava ameaçado de sofrer
severamente, a menos que esses reveses fossem rápida e eficazmente compensados. |
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