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A formação
do Estado Soviético
A Rússia foi o primeiro país do mundo a implantar
um regime socialista baseado nos princípios do marxismo (socialismo
científico, elaborado por Karl Marx e Friederich Engels).
Este regime foi estabelecido em 1917, quando uma revolução derrubou
a monarquia czarista que vigorava no país. O líder da Revolução
Russa foi Vladimir Ilich Lênin, auxiliado por Leon Trotski, Josef
Stalin e outros militantes do Partido Bolchevique (radicais de esquerda).
Logo depois de assumir o poder, os bolcheviques instauraram um governo
provisório para dirigir o país. O órgão mais importante do novo
governo era o Conselho dos Comissários do Povo, espécie de Conselho
de Ministros (Comissário era o nome com que eram designados os ministros
do novo regime).
O governo dirigido por Lênin tomou imediatamente diversas medidas
destinadas a modificar totalmente a sociedade russa, visando conduzi-la
para o caminho do socialismo. Entre as principais medidas, destacaram-se:
- reforma agrária e fim da propriedade privada da terra;
- extinção de todos os títulos de nobreza;
- desapropriação de indústrias, bancos e grandes estabelecimentos
comerciais, que passaram para as mãos do Estado;
- nacionalização dos bancos e investimentos estrangeiros;
- criação do Exército Vermelho, com a finalidade de garantir a Revolução;
- criação do Partido Comunista, como passou a chamar-se o Partido
Bolchevique, como único partido do país ; o sistema de partido único
instituiu na Rússia a chamada "ditadura do proletariado", ou seja,
o governo dirigido pelos trabalhadores.
Todos esses itens constaram da Constituição Provisória de 1918.
O governo dirigido por Lênin enfrentou logo forte oposição dos setores
ligados ao antigo regime czarista. Militares, nobres, elementos
da burguesia (industriais, banqueiros, comerciantes), além de forças
vindas de outros países, começaram a atacar o novo regime. Teve
lugar então uma prolongada guerra civil, que causou milhões de mortos,
tanto em conseqüência da guerra quanto, principalmente, em conseqüência
da fome, pois a produção agrícola caiu assustadoramente e o sistema
de abastecimento ficou totalmente desorganizado. A guerra civil
só terminou em 1921, quando o Exército Vermelho, comandado por Trotski,
derrotou os últimos contingentes contra-revolucionários.
Em fevereiro deste mesmo ano o governo criou a Comissão Estatal
de Planejamento Econômico (Gosplan), cujo objetivo era centralizar
o planejamento e a execução da política econômica.
Como a guerra civil tinha devastado o país e a fome atingia grande
parte da população, o governo decidiu abandonar momentaneamente
os rígidos princípios do socialismo, que deveriam demorar um certo
tempo para dar seus frutos, e voltar a utilizar algumas das formas
de produção capitalistas, que vigoravam antes da Revolução. Assim,
foram autorizadas certas atividades particulares no campo e na cidade.
Os agricultores podiam comercializar seus produtos; comerciantes
podiam abrir pequenos estabelecimentos ; pequenas fábricas podiam
ser dirigidas por particulares ; eram admitidas diferenças de salários;
o capital estrangeiro podia investir no país. Estas medidas receberam
o nome de Nova Política Econômica (NEP); graças a elas, a produção
se normalizou em parte e a fome diminuiu.
Em dezembro de 1922, o nome do país foi mudado para União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas (URSS). Tratava-se de uma federação englobando
sete repúblicas: Rússia, Transcaucásia, Ucrânia, Rússia Branca,
Uzbequistão, Turquemenistão e Tadiquistão.
Em julho de 1923 foi promulgada uma nova Constituição, que estabeleceu
como órgão mais importante o Soviete Supremo, composto por delegados
de todas as repúblicas, encarregados da escolha do Conselho Executivo.
Stalin vence a Luta pelo Poder
Lênin morreu em 1924. Dois importantes dirigentes do Partido passaram
a disputar o poder: o secretário geral, Joseph Stalin, e Leon Trotski,
Comissário do Povo para Assuntos de Guerra. Stalin venceu a disputa.
Trotski não concordava com a orientação que Stalin imprimia à direção
do país e passou a fazer oposição ao novo dirigente, mas foi expulso
do partido e do território soviético. Morreu no México em 1940,
assassinado por um agente de Stalin.
Controlando a burocracia partidária e estatal, Stalin foi afastando
seus opositores até conseguir se tornar ditador absoluto em 1929.
Além da extrema centralização política, Stalin implantou a planificação
geral da economia, através dos planos qüinqüenais, que procuravam
desenvolver a indústria pesada e forçar a coletivização da agricultura.
Para obter a auto-suficiência industrial, a produção de bens de
consumo foi restringida; a erradicação do analfabetismo e a expansão
do ensino técnico também contribuíram para que a União Soviética
alcançasse rapidamente um elevado nível de desenvolvimento industrial.
Uma nova Constituição, outorgada por Stalin em 1936, confirmou seu
poder totalitário, ao mesmo tempo em que uma política de expurgos
maciços, instalando o terror permanente, promoveu o afastamento
e a eliminação dos opositores do regime.
Com essa extrema centralização e com o aumento do controle burocrático
e policialesco sobre a população soviética, Stalin instaurou o culto
de sua personalidade, transformando a ditadura do proletariado em
ditadura pessoal.
O Fascismo e o Nazismo
Enquanto Stalin, através da força, impunha à União Soviética seu
governo totalitário, o restante da Europa assistia à ascensão de
regimes totalitários na Itália, com o fascismo, e na Alemanha, com
o nazismo. .
Os tratados de paz que tinham sido impostos pelas potências vencedoras
da Primeira Guerra Mundial impediam que a Itália e a Alemanha tivessem
acesso aos mercados consumidores externos e às fontes de matéria-prima,
dificultando seu desenvolvimento industrial e sua equiparação às
demais potências da época: França e Inglaterra.
Gravemente afetados pela Grande Depressão de 1929, os governos da
Itália e da Alemanha estabeleceram como meta prioritária a reconstituição
de seus impérios coloniais, através de uma política de anexação
de territórios vizinhos. Para a execução dessa política, os dois
países passaram a organizar poderosas e bem equipadas forças armadas.
A agressiva política de expansionismo da Itália e da Alemanha pôs
em risco o precário equilíbrio que vigorava entre os países da Europa.
Em março de 1938, Hitler anexou a Áustria e incorporou os Sudetos,
região da Tchecoslováquia habitada predominantemente por alemães.
A Inglaterra e a França, principais potências da Europa, se acovardaram
diante da investida de Hitler e acabaram aceitando a anexação, pois
achavam que isso iria satisfazer as ambições do ditador alemão.
Mas Hitler não recuou, anexando, em 1939, o restante da Tchecoslováquia,
enquanto a Itália de Mussolini anexava a Albânia.
Em abril do mesmo ano Hitler demonstrou a intenção de reocupar o
corredor polonês, região que desembocava em Dantzig (atual Gdansk)
e dava à Polônia uma saída para o mar. Para evitar uma guerra em
duas frentes, Hitler firmou um acordo secreto com a União Soviética
para dividir a Polônia (Pacto Germano-Soviético de 27/8/39). Stalin
concordou mediante a promessa germânica de não intervenção na expansão
soviética pelo Mar Báltico.
A União Soviética e a Segunda Guerra Mundial
Em 1° de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia. A Inglaterra
e a França reagiram para protegê-la, desencadeando a Segunda Guerra
Mundial. Enquanto isso, a União Soviética se apossava da Polônia
Oriental e invadia a Finlândia.
Em 1940, Hitler avançou sobre a França e o norte da África. Além
disso, firmou o Pacto Tripartite com a Itália e o Japão, visando
uma nova repartição da Europa e da Ásia Oriental. Em seguida, dominou
a Hungria, a Romênia, a Bulgária e a Eslováquia. A Grécia e a Iugoslávia
também foram submetidas logo depois.
O pacto entre a Alemanha e a União Soviética também não teve duração.
Descontente com a adesão da Bulgária, sua zona de influência, ao
Pacto Tripartite, e impedido pelos alemães de anexar os estreitos
do Mar Negro, Stalin se desentendeu com Hitler que, por sua vez,
ordenou a invasão da União Soviética em junho de 1941.
No final de 1941, também os Estados Unidos entraram na guerra, depois
que sua base de Pearl Harbor, no Pacífico, foi atacada pelos japoneses.
A guerra se generalizou, desenvolvendo-se em três frentes: a ocidental,
a oriental e a guerra no Pacífico.
Na frente oriental, embora com relativo sucesso no início, o exército
alemão enfrentou ferrenha reação dos soviéticos. Por instrução de
Stalin, o exército soviético empregou a tática de "terra arrasada":
tudo era retirado por trem e levado para as regiões orientais do
país: fábricas, máquinas agrícolas, gado, além da população; o que
não podia ser levado era destruído. Isso acabou dificultando seriamente
o avanço alemão. Mesmo sofrendo baixas consideráveis, Hitler ordenou
que seus comandados continuassem o avanço, até o último homem: seu
objetivo era apossar-se dos campos petrolíferos do Cáucaso e das
indústrias militares de Stalingrado. No auge do avanço, a frente
de guerra se estendia de norte a sul da União Soviética. Os alemães
sitiaram Leningrado por dois anos e chegaram até perto de Moscou.
Mas os soviéticos, beneficiados pelo inverno e contando com reforços
trazidos de outros pontos do país, resistiram e impuseram a mais
importante derrota da guerra aos alemães, na também mais importante
batalha do conflito - a batalha de Stalingrado.
Começava assim, em 1943, o recuo nazista, enquanto o exército soviético
ia avançando sobre as zonas ocupadas, conseguindo retomar a Bulgária,
a Hungria, a Tchecoslováquia, a Polônia e a Finlândia, marchando
com decisão sobre a fronteira oriental da Alemanha.
Enquanto isso, o ataque combinado de ingleses e americanos libertou
a França, os Países Baixos e a Bélgica, fechando o cerco a Hitler,
pela frente ocidental.
Em fevereiro de 1945, Roosevelt (Estados Unidos), Churchill (Inglaterra)
e Stalin (União Soviética) reuniam-se na Conferência de Yalta para
acertar os detalhes finais da grande ofensiva contra a Alemanha,
fixar as zonas de ocupação sobre o território germânico a serem
controlados por um conselho afiado e reformular o mapa europeu.
Em abril de 1945 os soviéticos cercaram Berlim e em maio as tropa
alemãs capitularam nas diversas frentes de batalha.
Na Conferência de Potsdam, no mesmo ano, Stalin, Churchill e Harry
Truman, sucessor de Roosevelt na presidência dos Estados Unidos,
reuniram-se para definir o destino da Alemanha derrotada. Além da
desmobilização completa de suas forças armadas, da redução de seu
parque industrial e da obrigatoriedade de pagar pesadas reparações
de guerra, a Alemanha teve seu território dividido em quatro zonas
de ocupação a serem administradas pela União Soviética, Inglaterra,
Estados Unidos e França.
Os Estados Unidos e a União Soviética emergiram da Segunda Guerra
Mundial como as duas maiores potências do planeta.
A Europa após a Segunda Guerra Mundial
Logo após a guerra, a Europa viveu um período de estagnação econômica,
em virtude da paralisação das atividades produtivas, sobretudo agrícolas,
do desmantelamento da rede ferroviária, da baixa produção de matérias-primas
e da drástica redução da população economicamente ativa.
Apesar de terem sido aliados durante a guerra, os Estados Unidos
e a União Soviética começaram logo a se desentender, principalmente
a partir da Conferência de Potsdam, quando apareceram claramente
as diferenças políticas entre os dais regimes e as divergências
em torno da partilha territorial e da definição das respectivas
áreas de influência. Era certo, porém, que com o enfraquecimento
da Grã-Bretanha e da França, caberia a soviéticos e norte-americanos
a decisão sobre os destinos da Europa.
O fato de os Estados Unidos contarem com bombas atômicas em seu
arsenal bélico causava preocupação à União Soviética. Em contrapartida,
o Ocidente ia se mostrando cada vez mais temeroso com relação ao
avanço soviético, tendo em vista que, durante a Segunda Guerra,
a União Soviética anexara as repúblicas bálticas da Estônia, Letônia
e Lituânia, além de ocupar outros países que ajudara a libertar
da presença nazista. E mais, o Cremlin cooperava ativamente com
os partidos comunistas locais para a formação de democracias populares
(Repúblicas Socialistas) nestas regiões. Foi o caso da Polônia e
Iugoslávia (1945), da Albânia e Bulgária (1946), da Romênia (1947),
da Tchecoslováquia (1948) e da Hungria (1949).
Nas palavras do ex-chanceler inglês Winston Churchill, a União Soviética
de Stalin estendia sobre esses países uma "cortina de ferro", que
impediria qualquer influência ou ajuda do capitalismo à Europa Centro-Oriental.
A Guerra Fria
Em 12 de março de 1947, instado por Churchill, o presidente norte-americano
Harry Truman proferiu um violento discurso no Congresso, conclamando
seu país e todo o Ocidente a lutar contra o totalitarismo soviético
(Doutrina Truman).
Era o reconhecimento público das divergências entre as duas grandes
potências e o início da chamada guerra fria.
Para garantir e reforçar sua influência na Europa Ocidental , os
Estados Unidos elaboraram o Plano Marshall. Através dele os Estados
Unidos passaram a prestar poderosa ajuda aos países europeus, destroçados
pela guerra. A Alemanha era um dos alvos mais importantes. Graças
à ajuda econômica, os Estados Unidos pretendiam conter a propagação
do comunismo na região.
A União Soviética, apesar de exaurida economicamente e com um decréscimo
populacional de mais de 20 milhões de pessoas, mortas em decorrência
da guerra, não aceitou qualquer ajuda norte-americana, exemplo seguido
pelos demais países socialistas. Em setembro de 1947, foi criado
o Comitê de Informação dos Partidos Comunistas e Operários - o Kominform
-, com o objetivo de unificar a ação comunista na Europa Ocidental,
sob orientação de Moscou.
Com exceção da Iugoslávia, que se rebelou em 1948, todas as democracias
populares foram intimadas a admitir a intervenção de Stalin, que
não hesitou em usar a força repressora para obter o controle político
e econômico dessas áreas.
O caso da Alemanha gerou um problema delicado, já que seu território
estava dividido entre Inglaterra, França, Estados Unidos e União
Soviética, tornando uma administração conjunta absolutamente inviável.
Assim, americanos, franceses e ingleses decidiram em 1949 fundir
suas respectivas zonas de ocupação, inclusive suas áreas em Berlim,
dando origem à República Federal da Alemanha ou simplesmente Alemanha
Ocidental, com um governo autônomo pró-capitalista e capital em
Bonn. A zona oriental tornou-se a República Democrática Alemã, ou
Alemanha Oriental, segundo o modelo soviético, com capital em Berlim
Oriental.
Enquanto os Estados Unidos, pelo Plano Marshall, promoviam a reconstrução
da Europa, a União Soviética criava, em 1949, o Comecon - Conselho
para Assistência Econômica Mútua -, visando auxiliar os países socialistas
a recompor suas economias, através dos princípios da planificação.
No plano militar, as nações do Ocidente criaram, ainda em 1949,
a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), como resposta
à explosão da primeira bomba atômica soviética. A contrapartida
do Cremlin veio em 1955 com a assinatura do Pacto de Varsóvia (Tratado
de Assistência Mútua da Europa Oriental), um organismo de defesa
que congregava a União Soviética, a Alemanha Oriental, a Bulgária,
a Polônia, a Romênia, a Albânia e a Tchecoslováquia.
Um Mundo Bipolar
Estava armado o cenário para o confronto entre as duas grandes potências,
cuja animosidade ultrapassava as fronteiras dos respectivos aliados
para se estender a outras regiões do globo, sempre com o objetivo
de ampliar suas esferas de influência e dominar áreas estratégicas.
O mundo, então, dividiu-se em dois blocos distintos e rivais: o
capitalista, sob a liderança dos Estados Unidos, e o socialista,
sob o comando da União Soviética.
As disputas entre as nações-líderes acabaram s e estendendo para
outras regiões da Terra, camufladas na forma de ajuda financeira
e militar.
Concentradas na tarefa de sua reconstrução interna, a França, a
Inglaterra e a Holanda tinham dificuldades em manter seus domínios
coloniais na África e na Ásia. Assim, os Estados Unidos passaram
à ofensiva para ocupar esses espaços, criando zonas de atrito com
a União Soviética, também preocupada em apoiar os partidos comunistas
locais e garantir sua influência nessas regiões. Nesses locais ocorreriam
os enfrentamentos entre as duas potências a partir da década de
50. Exemplo marcante, nesse sentido, foi a Guerra da Coréia, ocorrida
entre 1950 e 1953.
A guerra fria ia deixando o mundo todo apreensivo com a possibilidade
de um enfrentamento direto, agora com armas nucleares. A idéia de
um confronto, ativas redes de espionagem, propaganda maciça contra
o regime político do "inimigo", este era o clima dominante dentro
das potências, que acabava se espraiando para suas respectivas áreas
de influência.
A Ditadura de Stalin
Internamente, sob a férrea condução de Stalin, os soviéticos implementaram
o Quarto Plano Qüinqüenal (1946-1950), que privilegiava o setor
energético, o transporte ferroviário e a reconstrução das fábricas
atingidas pela guerra. Entre 1951 e 1955, o Quinto Plano Qüinqüenal,
que incentivava principalmente o progresso tecnológico e a indústria
bélica, elevou a União Soviética ao lugar de segunda potência industrial
do mundo. Rapidamente, o país tornou-se o maior produtor de aço
e de petróleo.
A agricultura, porém, não acompanhou esse ritmo, tornando problemático
o abastecimento de uma população crescente, rato que teria repercussão
desastrosa num futuro não muito distante.
No plano político, a violência que caracterizou o governo de Stalin
atingiu não somente os soviéticos, mas também os outros países do
bloco socialista, que tentavam encontrar vias próprias de desenvolvimento,
fora dos rígidos padrões do Kominform.
Após a dissidência da Iugoslávia do marechal Tito, em 1948, Stalin
mergulhou no terror a Europa do Leste, promovendo expurgos nos partidos
comunistas da Hungria e da Bulgária (1949), da Polônia (1951) e
da Romênia (19S2), garantindo pela força que o exemplo iugoslavo
não tivesse seguidores.
Kruschev e a Desestalinização
A morte de Stalin, em 1953, desencadeou uma acirrada disputa pelo
poder, vencida por Nikita Kruschev, identificado com o aparelho
do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Em 1955, sob essa
nova liderança, a União Soviética passou por um processo de liberalização
do regime. Uma das prioridades foi o aumento da produtividade agrícola,
obtida pela descentralização de áreas econômicas, gerenciadas por
conselhos locais. Outro avanço notável ocorreu no âmbito da tecnologia
espacial: no dia 4 de outubro de 1957, a União Soviética surpreendia
o mundo com a notícia de que tinha colocado em órbita da terra um
satélite artificial, o Sputnik. Era uma façanha sem precedentes.
Menos de quatro anos depois, precisamente nu dia 12 de abril de
1961, o mundo tomava conhecimento de outro feito espetacular: pela
primeira vez, um homem se deslocava em uma órbita da Terra, livre
da atração gravitacional. O nome do astronauta correu mundo: Iúri
Gagarin.
Mas a realização mais importante de Kruschev ocorreu sem dúvida
no campo político. Internamente, deu início a um processo de abertura,
amenizando o rigor da censura, reduzindo o poder da polícia política,
reabilitando presos políticos e fechando diversos campos de trabalhos
forçados. Esse processo recebeu os nomes de degelo e desestalinização,
ou seja, eliminação dos traços deixadas por Stalin na vida da União
Soviética. O marco decisivo desse processo foi o XX Congresso do
Partido Comunista da União Soviética, em fevereiro de 1956, no qual
Kruschev levou mais longe ainda sua iniciativa de desestalinização:
revelou e denunciou os abusos e crimes cometidos por ordem de Stalin.
Esse fato repercutiu de maneira ampla nos países socialistas da
Europa Oriental, estimulando dissidências. Mas a pesada herança
stalinista ainda se fazia sentir e, através da intervenção militar,
a União Soviética não permitiu que rebeliões ocorridas na Polônia
e na Hungria, no ano de 1956, desviassem esses países de sua linha
ideológica.
No plano externo, Kruschev deu início a um processo de aproximação
com os Estados Unidos. Num gesto de grande coragem, em 1959, fez
uma visita de diversos dias àquele país. Era a primeira vez que
um dirigente da União Soviética já pisava o solo americano. Ao retornar
a seu país, Kruschev declarou: "Eu vi os escravos do capitalismo.
E vivem bem. " Através dessa aproximação com os Estados Unidos,
teve início o que se denominou de coexistência pacífica entre as
duas superpotências.
Em 1959 o bloco socialista seria ampliado com a inclusão de Cuba,
primeiro país da América Latina a adotar o regime comunista, em
decorrência de uma revolução liderada por Fidel Castro.
Essa aproximação com o Ocidente, além da política do degelo, não
agradou aos dirigentes da China, que tinha feito sua revolução socialista
em 1949. Lá, o fervor revolucionário não admitia aproximações com
os países capitalistas nem o afrouxamento da rígida disciplina doutrinária.
O que estava acontecendo na União Soviética, para o líder Mao Tsé-tung
e seus seguidores, era "revisionismo", isto é, desvio do caminho
revolucionário idealizado por Lênin. Após um período de acusações,
em 1960 os dois países romperam relações. Milhares de técnicos soviéticos
que trabalhavam no desenvolvimento de projetos na China foram chamados
de volta, deixando interrompidas numerosas obras.
Em 1961, novos acontecimentos viriam mostrar, de forma crua, que
as relações entre os países comunistas e capitalistas estavam longe
de se normalizarem. Na Europa, o governo da Alemanha Oriental, para
evitar a fuga de cidadãos para o lado ocidental, mandou erguer um
muro, fechando a fronteira entre ambos os países. Símbolo da intolerância
política, este muro só viria a ser derrubado em novembro de 1989.
A crise dos mísseis em Cuba
Na América, apesar dos ensaios de entendimento entre a União Soviética
de Kruschev e os Estados Unidos de John Kennedy, Cuba se transformaria
num perigoso foco de tensão internacional. A Revolução Cubana, ao
estatizar as empresas estrangeiras instaladas em seu território,
provocou represálias dos Estados Unidos, na forma de boicote à importação
de açúcar, principal fonte de divisas da ilha. Logo em seguida,
em 1961, exilados cubanos, treinados e equipados pela CIA (Agência
Central de Inteligência), tentaram invadir a ilha para derrubar
o governo de Fidel Castro, no episódio conhecido como a "invasão
da baía dos Porcos". Em decorrência, Washington e Havana romperam
relações, e Cuba, por pressão norte-americana, foi expulsa da OEA
(Organização dos Estados Americanos), ficando isolada política e
economicamente do resto do continente.
Esses fatos promoveram a aproximação de Fidel com os soviéticos,
de quem passou a receber ajuda financeira, técnica e militar para
estruturar o país segundo moldes socialistas. Como parte da aliança,
o Cremlin recebeu permissão para instalar mísseis em Cuba, mas o
governo americano logo descobriu e exigiu que fossem retirados.
Foram dias de extrema tensão, com o mundo à beira de uma guerra
nuclear. Depois de muitas negociações, os mísseis foram levados
de volta para a União Soviética, mas as tentativas de aproximação
entre os dois lados voltaram à estaca zero.
A Era de Brejnev
Dentro da União Soviética, Kruschev passou a sofrer pressões devido
a seu reformismo e perdeu seu posto em outubro de 1964 para Leonid
Brejnev. Este, embora prometesse continuar as reformas internas
e buscar a aproximação com o Ocidente, representava na prática a
retomada do controle pela poderosa burocracia, impermeável às mudanças,
ainda que controladas. Brejnev teve que se equilibrar entre a estagnação
da economia interna e o crescimento dos gastos militares. Além da
produção de armamentos, a União Soviética gastava fortunas para
manter suas tropas, em constante estada de alerta, não só em suas
próprias fronteiras, mas também em diversos pontos do globo sob
sua esfera de influência.
Nos 18 anos de poder, o governo de Brejnev se destacou por severo
controle sobre os países da Europa Oriental. Uma tentativa de empreender
uma série de reformas liberalizantes, liderada por Alexander Dubeek,
na Tchecoslováquia, em 1968, foi esmagada por tanques do Pacto de
Varsóvia.
O contato com os Estados Unidos foi retomado durante a gestão de
Richard Nixon (1968-1974), mas as conversações sobre limitação de
armas nucleares acabaram interrompidas em decorrência da invasão
soviética do Afeganistão, em 1979. Neste país, o exército soviético
interveio para sustentar um governo pró-Moscou que acabara de derrubar
a monarquia.
A vez de Gorbatchev
A morte de Brejnev, em 1982, trouxe problemas na cúpula hierárquica,
pois seus sucessores, idosos e doentes, vieram a falecer pouco tempo
depois da posse. Foi só em 1985, quando Mikhail Gorbatchev assumiu
a direção da União Soviética, que se iniciou a renovação dos quadros
dirigentes, o que permitiu implementar reformas profundas, tanto
na economia quanto na política e na administração.
Em fevereiro de 1986, Gorbatchev lançou a idéia da glasnost, uma
política de abertura e transparência no trato das questões soviéticas,
ou seja, uma campanha contra a corrupção e a ineficiência na administração,
com propostas de maior liberdade na política, na economia e na cultura.
Em seguida, lançou a perestroika, um plano de reestruturação do
sistema político e econômico da União Soviética.
Em linhas gerais, tratava-se de retirar os excessivos controles
sobre a economia, engessada pelo rígido planejamento estatal, e
simplificar a estrutura administrativa, de dimensões gigantescas
mas agilidade paquidérmica - tarefa extremamente complicada num
país de dimensões continentais, que congregava múltiplas nacionalidades,
algumas submetidas à força no período de Stalin.
É clara que essa proposta de mudanças profundas passou logo a sofrer
a oposição dos conservadores, ou seja, os comunistas ortodoxos,
os burocratas do aparelho estatal que temiam perder seus cargos
e privilégios, e os militares preocupados com possíveis cortes no
orçamento das Forças Armadas.
Apesar de toda a oposição, Gorbatchev conseguiu dar continuidade
aos seus planos e teve ainda reforçada sua liderança ao ser eleito
presidente da República em julho de 1988.
Tratava-se de um caminho sem volta e Gorbatchev teve de enfrentar
complicadores de peso. A abertura política incentivara movimentos
de autonomia, principalmente dos povos da região do Báltico (Letônia,
Lituânia e Estônia) que haviam sido subjugados por Stalin, e fizera
explodir rivalidades entre grupos religiosos opostos, na República
do Azerbaijão (cristãos ortodoxos contra muçulmanos).
Mas a economia continuava a apresentar um fraco desempenho, comprometendo
o abastecimento de toda a população.
As reformas se Aceleram
Em março de 1989, pela primeira vez na União Soviética, realizaram-se
eleições livres para a escolha do Congresso dos Deputados do Povo;
180 milhões de soviéticos foram à urnas, confiantes de que viviam
um momento único de sua história. O pleito, de certa forma , referendou
as diretrizes de Gorbatchev, pois acabou impondo humilhante derrota
aos candidatos oficiais.
Surgia com força, neste novo cenário político, a figura de Bóris
Yeltsin, eleito representante da cidade de Moscou com 89,4fé dos
votos e adepto de reformas mais aceleradas. Yeltsin havia sido prefeito
de Moscou e importante figura do Partido Comunista. Era do Comitê
Central. Logo que Gorbatchev lançou as propostas da glasnost e da
perestroika, Yeltsin passou a defendê-las com vigor. Era um ultra-reformista.
Por isso, passou a sofrer violentas pressões dos conservadores e
acabou renunciando a seus cargos, passando para a oposição.
Em fevereiro de 1990, uma nova legislação partidária estabelecia
a permissão para a organização de novos partidos políticos. Era
o fim da hegemonia absoluta do Partido Comunista, que vigorava desde
a tomada do poder pelos bolcheviques, com a Revolução de 1917. Neste
novo cenário que se criou, logo ganhou força a Plataforma Democrática,
frente política liderada por Bóris Yeltsin. Isso acentuava a pressão
sobre Gorbatchev no sentido de ampliar as reformas políticas e econômicas.
Mas a tarefa de transformar as velhas estruturas do império não
podia se concretizar de maneira tão rápida. Setenta anus de centralismo,
produção subsidiada e rigidez burocrática não se desfazem sem grandes
transtornos. A passagem do modelo estatizado de produção para a
economia de mercado gerou alta de preços e escassez de produtos,
aumentando a insatisfação popular.
Enquanto isso, o movimento separatista, iniciado nas repúblicas
bálticas em 1990, crescia e se espalhava para outras repúblicas.
Somente respostas positivas na economia poderiam reforçar os laços
que mantinham juntas as quinze repúblicas soviéticas.
Em março de 1991, um plebiscito em toda a União Soviética confirmou
por larga maioria dos eleitores (76%) o desejo de que fosse mantida
a união do país, na norma de uma "federação renovada de repúblicas
soberanas", com direitos iguais.
Neste mesmo ano, o Congresso dos Deputados do Povo aprovou um programa
econômico para acelerar a introdução da economia de mercado, com
a liberalização dos preços, privatização de empresas e estímulo
ao comércio exterior.
Gorbatchev achava-se numa posição delicada, pressionado, de um lado,
pelos ultra-reformistas, sob o comando de Yeltsin, e, de outro,
pelos comunistas ortodoxos que faziam de tudo para solapar as reformas
em curso.
O Golpe de Agosto de 91
Em 19 de agosto de 1991, uma notícia causou comoção Mundial: a agência
soviética Tass divulgou que Mikhail Gorbatchev havia deixado a presidência
da União Soviética por "problemas de saúde" e um certo Comitê Estatal
de Emergência assumira o puder. O sentido era inequívoco: Gorbatchev
fora vítima de um golpe de Estado. A "linha dura" do Partido Comunista
pretendia reinstalar um regime totalitário.
Mas a população reagiu. Milhares de pessoas saíram às ruas e passaram
a enfrentar os soldados e os tanques que se dirigiam ao edifício
do Parlamento da República da Rússia. Barricadas impediam o avanço
dos tanques. A tripulação dos tanques era retirada à força de dentro
dos veículos. Bóris Yeltsin passou a comandar a resistência, que
ganhou inclusive a adesão de muitos militares.
O noticiário dava conta de que o golpe fora liderado por Guennady
Yanayev, vice-presidente da União Soviética; Boris Pugo, ministro
do Interior; Dmitri Yazov, ministro da Defesa, e Wladimir Kryuchov,
chefe da KGB (a polícia secreta soviética).
Gorbatchev permaneceu 60 horas preso na Criméia, numa casa de praia
onde tinha ido descansar. Aos poucos, os golpistas foram perdendo
força diante da resistência de quase toda a nação. Graças à glasnost
e à perestroika, a União Soviética mantinha agora contatos abertos
com o exterior, que pôde acompanhar o desenrolar dos acontecimentos.
Vários chefes de Estado do Ocidente exigiram enfaticamente a recondução
de Gorbatchev ao poder.
Após três dias de resistência, Yeltsin e os militares legalistas
tinham recuperado totalmente o controle da situação e os golpistas
foram presos. Gorbatchev desembarcou livre em Moscou. De volta ao
cargo, o líder soviético reafirmou seu compromisso com o socialismo
democrático e sua intenção de somar forças com Yeltsin, agora extremamente
fortalecido por comandar a resistência aos golpistas.
Afastada a ameaça antidemocrática, faltava à União Soviética superar
seus grandes problemas econômicos e resolver a questão dos nacionalismos
dentro do país, já que os movimentos separatistas, principalmente
nas repúblicas bálticas, não tinham cessado.
Começa a Desintegração do Império
O golpe de agosto de 1991 praticamente abriu as comportas para o
movimento de independência das repúblicas que compunham a União
Soviética. As repúblicas do Báltico já tinham tentado separar-se
em 1990, mas foram severamente reprimidas, pagando com sangue sua
ousadia. Com o fracasso do golpe, o cenário mudou totalmente. As
forças conservadoras estavam derrotadas e quem mandava realmente
era Bóris Yeltsin e não mais Gorbatchev, cujo poder estava completamente
esvaziado. Assim, já no mês seguinte ao golpe, isto é, em setembro,
as repúblicas da Letônia, Estônia e Lituânia, uma após a outra,
reafirmaram, agora em caráter definitivo, suas declarações de independência.
A própria Rússia foi um dos primeiros países a reconhecer a independência
dessas repúblicas. Estava aberto o processo para as outras, que
também, na sua grande maioria, declararam-se separadas.
Outra conseqüência importante do golpe foi a suspensão, determinada
por Yeltsin em toda a Rússia, das atividades do Partido Comunista,
que implicou inclusive o confisco de seus bens.
A KGB teve sua cúpula dissolvida.
Gorbatchev admitiu a implosão da União Soviética mas tentou ainda
manter o vínculo entre as repúblicas, propondo a assinatura do chamado
Tratado da União. Mas suas palavras não fizeram eco e o processo
de separação se tornou irreversível. Isto preocupou o Ocidente,
e os Estados Unidos em particular, pois surgiu uma questão inevitável:
com o desmoronamento da União Soviética, a quem caberia o controle
sobre as armas nucleares?
Em 4 de setembro de 1991, Gorbatchev, como presidente da União Soviética,
e Bóris Yeltsin, na qualidade de presidente da Rússia, e mais os
líderes de outras nove repúblicas, em sessão extraordinária do Congresso
dos Deputados do Povo, apresentaram um plano de transição para criar
um novo Parlamento, um Conselho de Estado e uma Comissão Econômica
Inter-republicana. Embora tentasse estabelecer os parâmetros para
uma nova união entre as diversas repúblicas, este plano, na verdade,
significava o desmantelamento formal da estrutura tradicional do
poder soviético. De qualquer forma, a proposta acabou sendo aprovada.
Percebendo a importância de Gorbatchev para a estabilidade da nação,
naquele momento, Yeltsin prometeu o apoio da República russa ao
novo plano. Enquanto isso, os líderes ocidentais também davam sinais
de uma clara preferência pela permanência de Gorbatchev no poder,
embora demorassem a assumir o compromisso de uma ajuda econômica
mais efetiva à União Soviética.
De resto, era justamente o agravamento da situação econômica que
tornava mais delicada a posição de Gorbatchev. Decididamente, o
povo soviético estava impaciente diante da falta de perspectivas
de solução rápida para o desabastecimento do mercado interno.
Aprovado o plano de mudanças, faltava agora conseguir a assinatura
do Tratado da União com todas as repúblicas. Mas em li de dezembro
de 91, a situação se precipitou com a consolidação da independência
da Ucrânia, aprovada em um plebiscito com uma votação favorável
de 90% de sua população.
Numa espécie de golpe branco contra Gorbatchev, sete dias depois,
os presidentes das repúblicas da Rússia, Ucrânia e Bielorússia,
reunidos na cidade de Brest, criaram a Comunidade de Estados Independentes
(CEI), decretando o fim da União Soviética.
Diante disso, James Baker, secretário de Estado norte-americano,
declarou: "O Tratado da União sonhado pelo presidente Gorbatchev
nunca esteve tão distante. A União Soviética não existe mais".
De fato, em 17 de dezembro Gorbatchev foi comunicado que a União
Soviética desapareceria oficialmente na passagem de Ano Novo.
Na seqüência, no dia 21 de dezembro, os líderes de 11 das 15 repúblicas
soviéticas reuniram-se em Alma-Ata, capital do Casaquistão, para
referendar a decisão da Rússia, Ucrânia e Bielorússia e oficializar
a criação da Comunidade de Estados Independentes e o fim da União
Soviética.
Gorbatchev, agora, governava sobre o vazio.
Gorbatchev renuncia
No dia de Natal, em cerimônia transmitida por satélite para o mundo
inteiro, o líder soviético renunciou ao cargo de presidente e comandante
em chefe das Forças Armadas da União Soviética, transferindo a Bóris
Yeltsin o controle do arsenal nuclear.
Nas palavras de um comentarista: "Gorbatchev é comunista e desabou
com o comunismo sendo comunista. Assumiu o puder, casou em si uma
das mais difíceis combinações humanas, a que une entusiasmo com
prudência, entendendo que a tolerância, em determinadas circunstanciais,
é uma virtude revolucionária, mas não ousou ir até o fim (...) Descontente
com um autoritarismo (...), acreditou que a saída estava dentro
do próprio comunismo e, para isso, bastaria reformula-lo. Padeceu
da utopia de que um sistema que esgota a sua experiência pode ser
restaurado em reuniões e protocolos (...) Gorbatchev nunca enxergou
para fora do comunismo e aí parou e andou para trás. Perdeu. Isso
não o faz um estadista de perspectivas limitadas mas, sim, leva
à necessidade de entendimento, no círculo mesmo da História, que
os homens têm de seu tempo e seu limite". Antônio Carlos Prado.
Isto é/Senhor, 25/12/91.
A extinção da União Soviética e a criação da CEI não eliminaram
concretamente nenhum dos problemas que vinham assolando a ex-União
Soviética.
A tentativa de fazer uma passagem imediata para a economia de mercado,
com a liberação total de preços a partir dos primeiros dias de 1992,
provocou protestos da população e discordância entre as repúblicas.
Em poucos meses o preço de muitas mercadorias, dos transportes e
de alguns serviços ficaram pelo menos 12 vezes mais caros.
As mudanças nos Países da União Oriental
Durante a Segunda Guerra Mundial, como vimos, os países da Europa
Oriental foram ocupados pela Alemanha. Eram eles: Polônia, Hungria,
Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia e Iugoslávia. Com a derrota da
Alemanha eles ficaram sob a área de influência da União Soviética.
Com exceção da Iugoslávia, todos eles seguiam rigorosamente as diretrizes
do Partido Comunista da União Soviética.
É claro, portanto, que a implantação da perestroika e da glasnost
iria desencadear enormes mudanças também nesses países.
Vamos examiná-los rapidamente, um por um.
Polônia
Na Polônia, o processo de transformações políticas e econômicas
começou antes que em qualquer outro país socialista. Já no final
da década de 70 e início da década de 80, movimentos grevistas passaram
a agitar os principais centros industriais do país, principalmente
os estaleiros de Gdansk.
Diante da falta de iniciativa das autoridades e dos sindicatos,
atrelados ao governo, um grupo de operários e de intelectuais decidiu
fundar um sindicato independente, que recebeu o nome de Solidarnosc
(Solidariedade). Sua combatividade surpreendeu os operários poloneses,
que passaram a aderir em massa ao novo sindicato.
A iniciativa dos operários e de suas lideranças - entre as quais
se destacava a de Leeh Walesa - atingiu frontalmente as autoridades,
que passaram imediatamente a combatê-lo. Como não conseguiram resultado,
em 1982 o governo implantou a lei marcial e o Solidariedade foi
declarado ilegal e proibido de funcionar.
Os anos seguintes foram extremamente difíceis. O Solidariedade funcionou
na ilegalidade e diversos membros da sua direção estiveram presos.
Com a perestroika na União Soviética, a partir de 1985, a situação
começou a mudar e em 1988 o sindicato emergiu novamente com força,
liderando nova onda de greves. O governo foi obrigado a ceder. Por
um acordo assinado entre o sindicato e o governo em abril de 1989,
a ilegalidade do sindicato foi revogada e foram estabelecidas novas
regras para o jogo político: foi criado o cargo de presidente da
República e criado um Parlamento com duas câmaras.
Em junho do mesmo ano, o Solidariedade, agora transformado em partido,
conquistou 99 das 100 cadeiras do Senado e 35% das da Câmara dos
Deputados (65% haviam sido reservadas aos comunistas e seus aliados).
Tadeus Mazowiecki, um dos principais líderes do Solidariedade, assumiu
o cargo de primeiro-ministro.
O Partido Comunista, após as eleições, passou a perder força a cada
dia, até tornar-se totalmente inexpressivo.
Em 1990 foram organizadas eleições para presidente da República.
Leeh Walesa elegeu-se, derrotando o próprio Mazowiecki, com quem
se havia desentendido.
Walesa tem procurado acelerar o processo de retorno da economia
polonesa às regras do livre mercado. Conseguiu reduzir à metade
a dívida externa do país. Depois de dois anos de governo, as dificuldades
ainda eram enormes. Havia muito desemprego, inflação e baixos salários.
Hungria
Em 1956 a Hungria fez uma tentativa de mudar os rumos do socialismo.
Imre Nagy liderou um movimento que propunha a democratização do
regime político, com maior liberdade de expressão e certa liberalização
da economia. Stalin mandou seus tanques e a rebelião foi esmagada.
O sucessor de Nagy, embora seguisse inicialmente a orientação de
Moscou, começou lentamente a introduzir algumas reformas na economia.
A produção de bens de consumo passou a ser priorizada. As empresas
estatais ganharam maior autonomia e a coletivização da agricultura
foi abandonada, tendo os camponeses liberdade para comercializar
sua safra. Graças a essas medidas, o abastecimento alcançou excelentes
níveis de eficiência, difíceis de serem observados nos outros países
socialistas.
Com o advento da perestroika, essas reformas foram aceleradas por
iniciativa do próprio Partido Socialista Operário Húngaro, como
se chamava o Partido Comunista da Hungria.
Em fevereiro de 1989 foi abolido o sistema de partido único e introduzido
o pluripartidarismo. Foram aprovadas eleições diretas para presidente
da República e para o Parlamento.
A transição para a economia de mercado vem se acelerando cada vez
mais. A propriedade privada no campo foi restabelecida, o Imposto
de Renda foi adotado, inaugurou-se a primeira bolsa de valores do
mundo socialista, foram suprimidos os subsídios e abolido o tabelamento
de alimentos e bens de consumo.
Tcheco-Eslováquia
Em 1968, Alexander Dubcek, então secretário-geral do Partido Comunista
da Tcheco-Eslováquia, iniciou um movimento de democratização do
pais, que ficou conhecido como Primavera de Praga. O movimento não
floresceu, pois os tanques do Pacto de Varsóvia invadiram a Tcheco-Eslováquia
e Dubcek foi destituído do cargo.
Só em 1977 é que um novo movimento começou a estruturar-se com a
publicação de um manifesto assinado por diversos intelectuais. O
manifesto recebeu o nome de Carta 77, protestava contra a repressão
e exigia maior respeito aos direitos humanos. A forte repressão
não permitiu que o movimento se fortalecesse, o que veio a ocorrer
somente na segunda metade da década de 80, graças à perestroika.
A partir de 1987 a oposição se reorganizou e os protestos começaram
a surgir em diversas partes. Intensificaram-se sobretudo em 1989,
quando os intelectuais da Carta 77 passaram a liderar o movimento.
Eles tinham fundado o Fórum Cívico, cujo líder mais importante era
Vaclav Havei, importante escritor e teatrólogo.
Aos poucos, o movimento de oposição obrigou o Partido Comunista
a ceder o poder, que foi assumido pelo Fórum Cívico. Alexander Dubcek,
que se elegera deputado federal, assumiu a presidência da Câmara
dos Deputados. Vaclav Havei foi eleito presidente da República.
As mudanças na Tcheco-Eslováquia receberam o nome de "revolução
de veludo".
Bulgária
A Bulgária sempre foi o país mais fielmente ligado à União Soviética.
Por isso, as mudanças neste país começaram apenas em 1989, quando
em outros países já estavam em andamento movimentos bastante amplos.
No final de 1989, começaram manifestações exigindo reformas. Todor
Jivkov, que estava no poder havia 35 anos, foi substituído por um
dirigente identificado com a perestroika, que prometeu implantar
o pluripartidarismo no país. Ainda no final de 1989 surgiu a União
das Forças Democráticas, que reunia vários grupos de oposição e
levou 100 000 pessoas às ruas para exigir eleições livres e o fim
do regime de partido único.
As manifestações prosseguiram e, no início de 1990, Jivkov foi preso
e acusado de crimes contra o Estado. O próprio Partido Comunista
optou por adotar a denominação de Partido Socialista e passou a
defender a economia de mercado.
Ainda em 1990 foi eleita uma Assembléia Constituinte, que elaborou
uma nova Constituição, promulgada no ano seguinte. Foi instaurada
a democracia e definido o Parlamentarismo como forma de governo.
Na economia, iniciou-se o processo de privatização das empresas
estatais.
Romênia
A onda de liberalização do Leste Europeu não deixou de atingir também
a Romênia, governada com mão de ferro por Nicolae Ceausescu durante
24 anos. Justa mente por sua resistência em acompanhar o processo
desencadeado pela perestroika, ele acabou derrubado do poder de
forma violenta e fuzilado no dia de Natal de 1989.
Nos anos 70, Ceausescu lançara um ambicioso plano de industrialização,
centralizado na petroquímica e financiado por empréstimos externos.
Com a crise internacional do petróleo, a partir de 76, o déficit
comercial da Romênia atingiu cifras elevadas. Considerado pelo Ocidente
como um bom pagador, Ceausescu resolveu honrar seus compromissos
à custa de sacrifícios impostos à população. Trabalho redobrado,
o racionamento de gêneros de primeira necessidade, cortes no fornecimento
de energia, tudo era feito para ampliar as exportações e carrear
recursos para os cofres públicos. Qualquer contestação era duramente
punida.
Como parte de seus planos, o ditador decretou a romenização da minoria
húngara que vivia no país. Esse ato de força desencadeou forte reação
popular a partir da cidade de Timisoara, na Transilvânia, em dezembro
de 1989. Ceausescu mandou reprimir as manifestações. Houve milhares
de mortos. A revolta se intensificou mais ainda, alcançando praticamente
todo o país, inclusive a capital. Diante disso, o Exército também
se revoltou, indo engrossar a oposição.
Permaneceu ao lado do ditador apenas a Securitate, sua polícia secreta,
que entretanto não deu conta de protegê-lo. Ceausescu acabou preso
quando tentava fugir de helicóptero. Ele e sua mulher foram em seguida
submetidos a um tribunal militar, condenados à morte e fuzilados.
Na falta de partidos de oposição organizados, foi criada a Frente
de Salvação Nacional; formada basicamente por ex-dirigentes do Partido
Comunista que haviam caído em desgraça sob o governo de Ceausescu,
tendo à frente Ion Iliescu.
Foi anunciado imediatamente o fim da censura, a liberdade partidária,
a dissolução da Securitate e o fim do racionamento dos gêneros de
primeira necessidade.
Foram marcadas eleições para 1990 e Iliescu foi acusado de usar
a máquina de governo para garantir sua vitória no pleito, o que
gerou protestos em todo o país. Apesar disto, ele foi eleito por
ampla margem de votos.
A falta de uma tradição democrática retarda a reorganização da sociedade
romena, que, além dos problemas econômicos e políticos, próprios
de um período de transição, assistiu o ressurgimento de grupos ultranacionalistas
e racistas, que pressionam pela expulsão da minoria húngara residente
no país.
Apesar desses conflitos, em novembro de 1991 foi aprovada uma nova
Constituição, que consagrou a propriedade privada e estabeleceu
diretrizes para levar o país à abertura econômica, a exemplo dos
demais países do Leste Europeu.
Albânia
Último reduto do stalinismo na Europa, a Albânia resistiu o quanto
pôde aos ventos da abertura. Sob a condução de Enver Hohxa - que
governou o país desde o fim da Segunda Guerra Mundial até 1985 -
, a Albânia se isolou do mundo, afastando-se até da União Soviética
e do Comecon, em 1961, por não concordar com a desestalinização
proposta por Kruschev. Alinhou-se então com a China.
Sua política econômica sempre privilegiou a indústria pesada, aproveitando
as fontes de matéria-prima existentes no país, como o petróleo e
o crômio. Na agricultura, a regra era a coletivização. A médio prazo,
esse modelo fez o país atingir a auto-suficiência em alimentos.
Trocas no exterior, só a dinheiro, e quando absolutamente imprescindíveis.
A partir dos anos 80, já rompida também com a China, a Albânia iniciou
uma pequena aproximação econômica com o Ocidente. Mas sua política
permaneceu inalterada até 1985, quando Enver Hohxa morreu. Seu sucessor
continuou com essas diretrizes e o país chegou ao final da década
com um padrão de consumo ainda bastante restrito.
O governo apresentava, como conquistas importantes, bons sistemas
de saúde, educação, transporte e habitação. Mas esse argumento não
sensibilizava os mais jovens, que ansiavam por um melhor padrão
de vida, de que tinham conhecimento através de programas de televisão
captados da Iugoslávia, Itália e Grécia.
Em julho de 1990, milhares de albaneses começaram a invadir embaixadas
estrangeiras na capital, Tirana, em busca de asilo. O governo acabou
autorizando a emigração. Simultaneamente, tomou medidas para afastar
os ministros mais duros, que queriam reprimir a população.
Os albaneses conseguiram obter legalmente seus passaportes, pequenas
empresas familiares foram autorizadas a funcionar, a entrada de
capital estrangeiro foi permitida, ainda que timidamente, e os camponeses
foram autorizados a vender sua produção aos preços de mercado. Após
o relaxamento da censura, foi concedida também liberdade religiosa
e partidária.
Finalmente, em março de 91, foram realizadas eleições parlamentares,
que deram 66% dos votos para os candidatos do Partido do Trabalho,
o Partido Comunista local.
Apesar desses avanços, parte da população decidiu não esperar mais
pela melhoria das condições de vida, ainda bastante duras, em comparação
com os vizinhos mais prósperos.
Em agosto de 91, uma leva de 22 000 albaneses tentou emigrar para
a Itália, através de Brindise, no sul do país. O governo italiano,
que havia acolhido albaneses anteriormente, desta vez se recusou,
pois o mercado de trabalho no sul da Itália, região menos desenvolvida
do país, não comportaria tal volume de imigrantes. Sob protesto,
17 000 desses albaneses foram repatriados.
Em março de 1992, novas eleições foram realizadas. O pleito foi
convocado para renovar todo o Parlamento, que, por sua vez, elege
o presidente da República. O Partido Democrático (não-comunista)
venceu as eleições. Este fato representou o fim da experiência socialista
na Albânia.
Alemanha Oriental
A República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental, era o país
mais desenvolvido de todo o Leste europeu. Erich Hönecker era o
dirigente máximo do país.
Na década de 80, entretanto, para manter sua política de subsídios,
característica dos regimes socialistas, o governo recorreu a empréstimos
externos, endividando o país e gerando um decréscimo de investimentos
em infra-estrutura. Em decorrência, a economia entrou em crise.
Mais do que nunca, os alemães orientais se viram tentadas a cruzar
a fronteira com a Alemanha Ocidental, o país mais rico da Europa,
em busca de novas oportunidades de trabalho.
Nem o Muro de Berlim, construído em 1961, conseguiu desestimular
as fugas. No final de década de 80, com a abertura dos regimes da
Polônia e da Hungria, consolidou-se uma via segura de evasão. Como
não era necessário passaporte para transitar entre os países socialistas,
os alemães orientais dirigiam-se para a Polônia e a Hungria e dali
para o Ocidente, sem maiores dificuldades.
Calculava-se que, por esse caminho, a Alemanha Oriental poderia
perder até 15% de sua população até 1990.
Começaram a surgir manifestações em diversas cidades. A polícia
política - Stasi - tentava reprimi-las, mas com pouco sucesso. Egon
Krenz, um dos altos dirigentes do Partido Comunista, liderou um
golpe que derrubou Erich Hönecker e deu início a reformas no partido
e no regime.
Presos políticos foram anistiados.
O fato mais significativo desse processo foi a abertura do muro
de Berlim, em novembro de 1989, decidida pelo governo de Egon Krenz.
A população passou a se organizar em partidos, sindicatos e grupos
políticos diversos, alguns dos quais defendiam a reunificação da
Alemanha. Dentre estes movimentos, destacou-se o Novo Fórum, com
uma plataforma contrária à idéia da reunificação alemã e a favor
da democratização do socialismo. Era, até o início de 90, a agremiação
favorita nas eleições previstas para abril.
Mas, de olho na unificação, partidos políticos da Alemanha Ocidental
interferiram na política interna Oriental, especialmente Helmut
Kohl, chanceler (primeiro-ministro) e membro da Democracia Cristã.
Procurando agrupar os conservadores, Kohl conseguiu formar uma coalizão
- Aliança pela Alemanha - com um discurso pró-unificação, que surtiu
efeito junto ao eleitorado alemão oriental, esvaziando a força do
Novo Fórum.
Nas eleições, a Aliança pela Alemanha elegeu 193 deputados para
o Parlamento da Alemanha Oriental. Helmut Kohl conseguira seu intento:
em 3 de outubro de 1990 a Alemanha foi reunificada.
Após os festejos que uniram alemães dos dois lados, começou o processo
de absorção da parte oriental pela parte ocidental. Muitas empresas
do leste foram fechadas, pois utilizavam tecnologia superada. A
moeda oriental foi trocada pela ocidental.
Como a unificação se deu muito rapidamente, acabou sendo traumática
para muitas pessoas , que acabaram perdendo seus empregos.
Iugoslávia
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Iugoslávia foi ocupada por forças
nazistas. Surgiu então um movimento guerrilheiro de resistência,
comandado por Josef Broz Tito. Terminada a guerra e expulsos os
nazistas, Tito conseguiu reunir sob sua liderança e sua direção
as diversas nacionalidades que compunham o país, num total de seis
repúblicas.
Tito e seus seguidores eram socialistas e o sistema político estabelecido
no país após a guerra foi o socialismo. Inicialmente a Iugoslávia
manteve-se alinhada com a União Soviética de Stalin. Mas, após uma
série de desentendimentos, em 1948 Tito afastou-se das diretrizes
impostas pela União Soviética e definiu um modelo próprio de socialismo.
Uma das características desse modelo era a autogestão das fábricas
pelos operários. A partir de 1953, foi autorizada a dissolução das
comunas rurais e o ressurgimento da pequena propriedade urbana.
Mas o maior mérito do regime chefiado por Tito foi a manutenção
da unidade de um país que congrega diversos povos, alguns, inimigos
de longa data. Habitam o país sérvios (cristãos ortodoxos), eslovenos
(católicos), bósnios (muçulmanos), húngaros, albaneses, entre outros.
São seis unidades políticas: Sérvia, Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina,
Monte Negro e Macedônia, além de duas regiões que pertenceram à
Sérvia na década de 60, mas conseguiram sua autonomia posteriormente
(Kosovo e Voivodina).
Apesar dessas diferenças, enquanto Tito viveu, a Iugoslávia gozou
de um período de estabilidade política.
Quanto à economia, em 1967 foram implantadas reformas para se alcançar
o que era denominado socialismo de mercado. Tratava-se de uma tentativa
de combinar a livre iniciativa com alguns princípios socialistas
e melhorar o desempenho do setor produtivo.
Como vimos, essa passagem para a economia de mercado é extremamente
complicada e a Iugoslávia não fugiu à regra. Sobreveio um período
de crise, com desemprego, inflação e endividamento externo.
Pouco antes de sua morte, em 1980, Tito procurou uma forma de manter
unido o país, antevendo que, somente dessa maneira poderia ocorrer
a superação da grave crise econômica. Criou então a presidência
rotativa, a ser exercida pelas lideranças de cada uma das seis repúblicas,
alternadamente.
Esse sistema não eliminou o descontentamento crescente das repúblicas,
que explodiu com força após a morte de Tito.
Na verdade, as desigualdades existentes entre as repúblicas vinham
se acentuando cada vez mais, diante da crise econômica. A Eslovênia,
por exemplo, cuja população representa apenas 8% do total da Iugoslávia
e produz 30% do PIB, passou a reclamar dos subsídios dos fundos
federais, destinados às regiões mais pobres.
Esse desnível econômico entre as diversas repúblicas veio à tona,
com muita força, na época de se efetuar mais um rodízio na presidência
da federação.
Em maio de 1991, era a vez do croata Stipe Mesic assumir a presidência
do país.
Temendo que o mesmo atendesse às reivindicações das repúblicas mais
ricas, Eslovênia e Croácia, que propunham o separatismo ou um novo
arranjo no poder, os sérvios impediram a posse.
Fui convocado um plebiscito para que a população iugoslava se pronunciasse
sobre o futuro do país.
A Croácia e a Eslovênia, governadas desde dezembro de 1990 por líderes
de centro-direita, propunham o estabelecimento de uma confederação
de Estados soberanos.
A Sérvia, a maior dentre as repúblicas, se opôs a esse plano, insistindo
em manter a federação com um governo central forte. Seu presidente,
Slobodan Milosevic, acreditava ser possível manter a unidade do
país com o apoio do exército federal, que tem em suas tropas 43flo
de soldados sérvios.
Em 25 de junho de 1991, os parlamentos da Eslovênia e a Croácia
declararam unilateralmente a independência de seus respectivos países.
Como resposta, a Sérvia mobilizou o exército federal, que começou
uma ofensiva contra a Croácia e a Eslovênia, dando início a uma
violenta guerra civil.
A Comunidade Européia tentou pôr fim ao conflito, congelando todo
o tipo de ajuda, inclusive financeira, à Iugoslávia e enviou uma
missão para intermediar um cessar-fogo. Como resultado, ficou estabelecido
que a Comunidade Européia concedia uma moratória da dívida externa
da Sérvia e esta permitiria que o croata Mesic assumisse finalmente
a presidência.
A Eslovênia e a Croácia consentiam também em suspender por
três meses suas declarações de independência.
Mas as tropas federais, comandadas por oficiais sérvios, não têm
respeitado as numerosas tentativas de impor um cessar-fogo efetivo
ao conflito.
Todas as tentativas de trégua mediadas pela Comunidade Européia
fracassaram e a UNÚ assumiu a tarefa de buscar solução para o conflito,
desembarcando na Iugoslávia, em janeiro de 1992, um contingente
de 10 mil soldados (inclusive brasileiros) das Forças de Paz.
A Iugoslávia, tal como existia, desapareceu no dia IS de
janeiro de 1992, ocasião em que a Comunidade Econômica Européia
reconheceu a independência da Croácia e da Eslovênia. Suécia, Islândia
e Vaticano reconheceram os dois países logo a seguir.
Sérvia e Monte Negro foram as duas únicas repúblicas a ficarem juntas.
A Bósnia-Herzegovina e a Macedônia declararam sua independência
em março de 1992. Mas nessas repúblicas a situação é complexa. A
Bósnia abriga uma presença étnica de sérvios, croatas e muçulmanos.
A Macedônia sofre a oposição da Grécia, que não admite nenhum Estado
com esse nome, pois Macedônia é o nome de uma província grega.
Até o final de janeiro de 1992, a guerra civil iugoslava já tinha
causado cerca de 6 000 mortos e meio milhão de desabrigados. A destruição
era enorme, tendo atingido inclusive cidades de grande importância
histórica e interesse turístico, como Dubrovnic.
Outros Países Socialistas
As mudanças introduzidas na União Soviética a partir de 1985 não
afetaram apenas o país de Gorbatchev ou as chamadas Repúblicas Populares
da Europa Oriental. Elas atingiram também a maioria dos outros países
de economia planificada (socialistas).
Na África, Angola e Moçambique, independentes desde 1975,
haviam feto a opção pelo socialismo. Mas as dificuldades para alcançar
um grau mínimo (te desenvolvimento eram enormes. Em Angola, as dificuldades
provinham sobretudo da guerra civil travada contra um movimento
de oposição armado, a Unita (União para a Independência Total de
Angola). Em Moçambique, eram dois os obstáculos principais: a guerra
de guerrilhas desenvolvida contra o governo e contra a própria população
pela Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), ligada a antigos
proprietários portugueses e a interesses da África do Sul; outro
obstáculo não menos cruel tem sido a seca (e a fome dela resultante).
Em Angola, as mudanças começaram no início de 1991, quando o Congresso
angolano alterou a Constituição do país, acabando com o sistema
de partido único, vigente durante os 16 anos anteriores. Foram também
elaboradas leis prevendo a volta da economia de mercado e a permissão
para a organização de outros partidos políticos.
Em junho de 91 eram concluídas negociações entre o governo angolano
e a direção da Unita. Foi assinado um acordo de paz cujo cumprimento
seria supervisionado pela ONU. O acordo estabeleceu também a realização
de eleições gerais, livres e diretas, em 1992.
A guerra civil em Angola, que durou 16 anos, deixou um saldo de
mais de 30 000 mortos, cerca de 100 000 feridos e mais de 500 000
refugiados.
Moçambique também reformou sua Constituição em 1991. Estabeleceu
as normais gerais para a implantação da economia de mercado, imprensa
livre, judiciário independente e eleições gerais em data a ser definida.
O fim do sistema de partido único fui nutro ponto importante da
reforma constitucional. Em maio de 1991 foram iniciadas conversações
entre o governo moçambicano e a direção da Renamo para pôr fim à
guerra civil.
Outro país de grande importância é o Vietnã. Após a guerra
com os Estados Unidos, à qual se seguiu uma guerra civil que terminou
em 1975, o Vietnã do Norte tiniu-se ao Vietnã do Sul, constituindo
um só país, com capital em Hanói. Os princípios do socialismo eram
rigidamente seguidos. Em 1991, o governo vietnamita iniciou um processo
de reforma da Constituição, visando instaurar em parte a economia
de mercado e acabar com o regime de partido único.
Também no Camboja o regime comunista, em vigor desde 1975,
começou a ser abandonado em 1991. Foi assinado um acordo de paz
entre o governo, líderes do Khmer Vermelho (grupo guerrilheiro comunista
de oposição) e o príncipe Norodon Sihanouk (antigo presidente do
país). Por esse acordo, ficou estabelecido um cessar fogo na guerra
civil e uma reorganização do país, com a participação dos três grupos
políticos envolvidos.
De todos os países socialistas, Cuba é o único que ainda
não aderiu às reformas desencadeadas pela perestroika, mantendo-se
rigidamente fiel à ortodoxia marxista-leninista.
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