No dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, faleceu o ex-ditador chileno Augusto Pinochet, que ao longo de 17 anos estivera à frente de um dos regimes mais cruéis do século XX. Em setembro de 1973, o general Pinochet encabeçou um golpe de Estado em que foi cruelmente derrubado o Governo do presidente socialista Salvador Allende. Leonard Kossitchev, um veterano da “Voz da Rússia” que nos últimos anos orienta o Serviço em Espanhol e Português desta emissora, foi uma testemunha imediata daqueles acontecimentos sangrentos. Então, ele trabalhava no Chile como correspondente da Rádio e Televisão soviéticas. Durante o golpe militar, nosso colega foi detido e conheceu em sua própria pele as atrocidades dos cárceres pinochetistas. Esta recordando aqueles dias: Naquele inferno total em que foi o Chile convertido por Augusto Pinochet com seu golpe, foram também atingidos e morreram muitos estrangeiros. Eram americanos, espanhóis, franceses, suíços... Eu fui detido ao cabo de uma semana pelas reportagens “subversivas” transmitidas pela “Rádio Moscou”, como então se chamava esta emissora, contra o novo Governo militar, nas quais eram denunciados os crimes cometidos pela Junta militar. O mais duro era o aspeto psicológico. Os policiais que me vieram prender deram a entender que me podiam matar. A situação estava ainda por cima agravada por estarem todos eles embriagados no meio de um monte de armas. Na ocasião, o Governo soviético fez o possível para no fim de contas alcançar minha libertação. Nos primeiros meses depois do golpe de Estado morreram no Chile mais de 3 mil pessoas. Mil e duzentas desapareceram. Ainda hoje não se sabe onde foram sepultadas cerca de mil pessoas. Nos 17 anos da ditadura pinochetista, milhares de pessoas passaram pelas prisões e campos de concentração ou foram submetidos a torturas. Quase 1 milhão foram expulsas. Todavia, o ditador produziu umas desgraças imensas náo somente ao seu próprio país – continua recordando Leonard Kossitchev. Augusto Pinochet criou uma organização terrorista internacional batizada “Condor”, composta pelo pessoal dos serviços secretos dos países governador por regimes ditatoriais. Era um mecanismo bem entrosado para perseguição e eliminação dos que se opunham aos regimes militares no Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina. Uma das vítimas dessa organização foi, por exemplo, Orlando Letelier, ministro das Relações Exteriores no Governo Allende, assassinado no território dos Estados Unidos. Igual sorte coube a muitas outras figuras políticias e sociais conhecidas. A morte do ditador não serviu para reconciliar os seus adeptos e seus inimigos. No Chile, as opiniões acerca da figura de Augusto Pinochet são diametralmente opostas. Para alguns, ou seja, para a maioria, ele era um criminoso, um ditador sangrento, o homem que deu início ao período mais duro da história nacional. Mas há também pessoas que julgam ter Augusto Pinochet reforçado a economia nacional. Entretanto, o progresso econômico do Chile dificilmente se poderia considerar como um milagre total – indica Leonard Kossitchev e continua: Augusto Pinochet colocou a economia aos dispor das melhores inteligências econômicas nacionais. Então, o Chile deu um avanço econômico rápido. Todavia, naquela época, muitos outros países latino-americanos registrara, igualmente um impressionante progresso econômico. Portanto, dizer que aconteceu no Chile um milagre econômico é absolutamente incorreto. Sim, o País ia se desenvolvendo. A taxa de crescimento estava boa, porém irregular. Houve também uns anos de grande recessão e os problemas sociais permaneciam sem solução. Sõ depois da chegada ao poder, em 1990, de um Governo democrático é que o desenvolvimento econômico do Chile passou a estabilizar-se. Em 1990, foi posto fim à ditadura militar e se realizaram no Chile eleições democráticas. Todavia, os crimes perpetrados pelo general Pinochet começariam a ser investigados só em 1998. Ele foi então acusado de assassinatos de adversários políticos, maquinações financeiras e falsificações documentais. O ditador deixou o mundo dos vivos sem ter respondido pelos seus crimes. As ações criminais instauradas pela Justiça nacional ficaram pendentes. A própria Natureza pronunciou seu veredito antes que o tribunal pronunciou sua sentença. Mas mesmo a morte do ditador não pôde acabar com os comentários feitos na mídia internacional cujos autores sujeitam à mais profunda condenação moral os crimes de lesa-humanidade cometidos por esse homem. P.S - Tradução de : Jonas Bernardino - Emissora "Voz da Rússia" | |