O tema de hoje
será o pão russo.
O papel do pão é tão
grande na vida do povo russo, que há muito ele
passou a simbolizar a abundância, a felicidade
familiar e conforto.
Por exemplo, na Rússia antiga era tradição
receber visitas com pão redondo e sal, para mostrar
a sua hospitalidade e como que propor-lhes o que há
de melhor o que existe na casa. Já os noivos,
após a cerimônia de casamento, deviam,
sem tocar com as mãos, morder juntos um pão fresco, para que
a família seja sólida, unida e feliz.
Nos filmes que mostram a vida na Rússia antiga,
com frequência podemos ver um menino com caneco
de leite numa mão e um grande pedaço de
pão noutra, lançando para nós um
alegre olhar.
Na vida do povo russo o papel fundamental
sempre foi desemenhado pelo pão de farinha de
centeio, ou como o chamavam e chamam, pão preto.
Ele foi consideravelmente mais barato e saciava mais
a fome do que o pão de farinha de trigo, o pão
branco. Porém,
havia tipos de pão de farinha de centeio, que
nem sempre podiam comprar até mesmo pessoas bastante
abastadas. Trata-se, por exemplo, do pão Boyárski,
para o qual usavam farinha moida especialmente, manteiga
fresca, leite coalhado normal, sem passar do ponto,
e na massa acrescentavam especiarias. Esse tipo de pão
era feito só por encomenda especial e para casos
especiais.
Pães de baixa qualidade eram considerados
os pães “esponjosos”. Esse pão era feito
de farinha bruta, que chamavam de cuim. O melhor pão,
que era servido em casas ricas, era o pão branco
feito de “flor de farinha”, ou seja, farinha de trigo
muito bem tratada.
Nos períodos de má safra, quando
havia escassês na reserva de centeio e de trigo,
à farinha misturavam todos os acréscimos
possíveis: cenoura, beterraba, mais tarde entrou
em cena a batata, bem como algo silvestre - bolota, casca de carvalho, urtiga, quenopódio.
Desde tempos remotos os padeiros eram honrados
e respeitados. Se nos séculos XVI e XVII as pessoas
simples na Rússia eram chamadas na vida cotidiana
e nos documentos oficiais por nomes diminutivos e um
tanto depreciativos como Fédka, Gríchka,
Mitróchka, aos padeiros com semelhantes nomes
se dirigiam dizendo o nome completo: Fiódor,
Grigóri, Dimítri. Na Rússia antiga
do padeiro exigia-se não só mestria, mas
também honestidade. Pois no país eram
frequentes os casos de fome e naqueles anos difíceis
os padeiros eram alvo de especial vigilância,
e aqueles que admitiam o estrago do pão, tanto
mais se dedicavam-se à especulação,
eram severamente punidos.
No fim do século XIX os habitantes
rurais faziam a panificação eles próprios
nos chamados “fornos russos”, ao passo que os habitantes
das cidades adquiriam pão nas padarias, que fazam
pão em grande quantidade e de diversos tipos.
Nas padarias e nos tabuleiros vendiam pão de
forno, ou seja, uma espécie de panqueca, mas
alta e grossa, ou pão de forma, ou seja, em forma
de cilindro ou paralelepípido.
Eram diversificados também os artigos de panificação: (kréndel)
rosca trançada,(búblik) rosca em forma
de argola e (baránca) rosquilho. Os habitantes
rurais recorriam raramente à eles. Geralmente
compravam os mesmos na cidade para brindar as crianças
e não os consideravam como alimento. Já
os habitantes da cidade usufruiam em grande amplitude
toda essa panificação na vida cotidiana.
Na Rússia sempre gostavam em especial
do kalátch, ou seja, pequeno pão de farinha
de trigo em forma de cadeado. O kalátch esteve
sempre presente na mesa de cidadãos simples e
nos luxuosos banquetes imperiais. O imperador enviava
em sinal de disposição especial ao Patriarca
e à outras figuras que ostentavam
elevados títulos eclesiásticos.
Ao conceder o dia de folga ao empregado, o patrão
nobre fava-lhe, via de regra, uns trocados “para comprar
o kalátch”.
Tinham fama de produzir excelente pão
os panificadores de Moscou, entre os quais tinha ampla
popularidade Filíppov. As padarias de Filíppov
sempre estavam repletas de clientes. Eram os mais diversificados
os seus clientes – desde estudantes até velhos
funcionários com longos capotes, elegantes senhoras
e mulheres operárias mal trajadas. Os artigos
de panificação das padarias de Filíppov
sempre tiveram grande procura não só em
Moscou. Os seus kalátchs e pãosinhos eram
enviados diariamente à São Petersburgo
para a Corte Imperial. Caravanas com pãosinhos
e pães das padarias de Filíppov eram enviadas
até para a Sibéria.. E quando perguntavam
à Filíppov, porque só o pão
dele era o melhor, ele respondia: “Porque o pão gosta de desvelo”.